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- ARTIGO -
MUDAREMOS DEPOIS DA CRISE?
A economia mundial continua estagnada, sem que os especialistas saibam o que fazer para reverter o processo. Todos se perguntam quando teremos crescimento novamente, sem se preocuparem sobre a maneira como cresceremos. Voltaremos a produzir com os ultrapassados processos fabris, administraremos com as desgastadas técnicas de gerenciamento e venderemos com o velho marketing de antes da crise? Continuaremos a repetir os mesmos erros em relação ao meio ambiente, utilizando recursos naturais até a exaustão e promovendo um consumismo altamente poluidor? E quanto aos aspectos sociais, será que reduziremos as injustiças ou continuarão os pobres sempre a reboque da riqueza cada vez mais concentrada?
No momento, o que chama a atenção é o que vem sendo publicado na imprensa, mostrando a dimensão do impacto social que o processo de estagnação econômica já está provocando. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) informa que o número de famintos em todo o mundo ultrapassará pela primeira vez a marca de um bilhão de pessoas em 2009. A entidade reporta que no ritmo em que a situação evolua a cada semana um milhão de pessoas passa a incorporar este imenso exército de famintos. Com isso, as “Metas do Milênio”, anunciadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) em pleno crescimento da economia mundial e prevendo entre outras coisas a redução da fome em todo o planeta até 2015, não serão alcançadas. “Pela primeira vez na história da humanidade, 1,02 bilhão sofrerão de desnutrição em todo o mundo”, disse o diretor da FAO, Jacques Diouf. Segundo a diretora do Programa da ONU para Alimento, Josete Sheeran, apenas 1% do dinheiro destinado aos bancos na crise financeira já resolveria o problema. Mas, com falta de verbas, a instituição será obrigada a cortar programas em diversos países pobres. A diretora ainda informa que entre 1969 e 2000 o percentual de famintos caiu de 37% para 18% da população mundial. No entanto, o aumento do preço dos alimentos – resultado de especulações financeiras entre 2005 e 2008 – aliado à crise econômica, fez com que somente em 2008 o número de pessoas passando fome aumentasse em 100 milhões. O aspecto especialmente escandaloso nesta situação é que, ainda segundo a FAO, 2009 terá uma das maiores safras agrícolas de todos os tempos. “Não há falta de comida, há falta de acesso. O problema não é um desastre natural nem de safra. O problema é econômico. É o resultado do desemprego, da queda de renda”, afirmou Diouf. O que piora a situação é o fato de que o preço dos produtos agrícolas em todo o mundo continua em média 24% acima dos preços de 2006, ainda como resultado da especulação com estes produtos.
Outro dado revelador é que segundo a ONU os países em desenvolvimento receberam dos países ricos o equivalente a US$ 2 trilhões nos últimos 49 anos, referente a diversos programas de desenvolvimento e combate à fome. No entanto, durante a presente crise, instituições financeiras ameaçadas em todo o mundo já receberam em um ano cerca de US$ 18 trilhões – 9 vezes mais!
Respeito ao ser humano e ao meio ambiente? Com estes dados vemos onde ainda estão as prioridades do atual sistema econômico.
Ricardo Rose
Julho/2009
Contato com Ricardo Rose
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