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- ARTIGO -
JORNALISTAS DIPLOMADOS E CARTEIRAS PROFISSIONAIS
(Postado no Blog "O LAGO" em 19 de junho)
O Supremo Tribunal Federal brasileiro deliberou contra a obrigatoriedade do diploma para jornalistas, considerando-o inconstitucional. O mundo académico está num alvoroço por causa desta decisão, mas é preciso perguntar: o diploma faz o jornalista?
Antes de começar, tenho que esclarecer uma coisa: sou plenamente a favor de escolas e cursos universitários de Jornalismo (estou a tentar entrar num Mestrado de Jornalismo Online) e creio que uma frequência universitária ajuda qualquer profissional a abordar, reflectir e trabalhar um assunto de forma diferente e complexa, que só a prática não ensina.
Apesar do meu curso em termos práticos poder ter sido resumido para seis meses, intelectualmente foi muito importante para amadurecer e desenvolver ideias, algo que o ensino superior deve promover. Juntem experiência de vida e temos o pacote completo. Alguns dos melhores jornalistas que conheci não têm esses tipo de educação, mas conhecem as ruas. Eu defendo todo o trabalho desenvolvido por professores e alunos nas Faculdades de Jornalismo de toda a parte. a sua importância é enorme.
Agora já posso dizer isto: a decisão foi correcta. Eu não preciso de um diploma para ser um reporter, ou ter um não faz obrigatoriamente de mim um melhor profissional. Devia, mas isso não é frequente. Podem dizer “Bem, vamos deixar de dar diplomas a médicos”. Não sejam arrogantes, a imagem dos jornalistas como semi-deuses foi o que lixou o negócio. Ter uma formação específica como jornalista traz vantagens enormes, mas como podemos ver, a definição do que o jornalista faz tem que ser revista.
Há um busílis nesta questão: o mundo académico tem medo de perder a sua importância, e os diplomados de perder o seu valor. Estes receios narcisistas estão errados. Depois desta decisão as universidades terão que ser mais competitivas e fornecer os melhores cursos, assegurando que os seus graduados são os melhores que podem haver; e os jornalistas com diploma terão que ter orgulho nele, são profissionais certificados. A questão real é: quem vai definir o padrão exigido para o bom jornalismo?
Resposta: a multidão e as empresas.
O público vai virar costas ao mau jornalismo mais facilmente do que faria antes, porque existe muito mais oferta agora. Se o público não gostar da experiência informativa, vão procurar uma melhor noutro lado. E cabe às empresas de informação fazer face a isto contratar os melhore profissionais. Se tiverem maus jornalistas fornecerão mau jornalismo, e será o seu fim. Tirando alguma excepções notáveis, a maioria das redacção irá atrás de pessoal especialista e certificado,ou.pelo menos, deviam.
Toda esta choradeira parece indicar que nunca tinha havido mau jornalismo, e que vai haver a partir de agora. Não puxem por mim sobre o jornalismo EM QUALQUER LADO. Sempre houve bons e maus, mesmo maus jornalistas, casos de plágio, vendidos, comportamentos pouco éticos, mentiras e agendas próprias. Não há um diploma no mundo que evite isto, pois parte da educação e princípios morais. Há cadeiras de ética em todos os cursos de Jornalismo, normalmente é a aula onde os alunos mais se aborrecem de morte e chumbam mais. Será que os que passam à justa e se esquecem de tudo no dia a seguir são os mais indicados para o trabalho? Não é esse o problema.
O problema é o que pedimos aos jornalistas. Os melhores jornalistas são os que trabalham mais, que têm competências pessoais próprias, que têm a atitude “jornalística”, que têm as bolas de fazer as perguntas certas, a coragem de enfrentar o poder estabelecido e expor os factos por mais feios e perigoso que se possa tornar para eles. Há jornalistas que morrem apenas por fazerem o seu trabalho. Não é um papel que certifica isto.
O que um diploma dá é confiança. Todos sabemos como são as coisas, como o jornalismo está a evoluir rapidamente. Muitos cursos estão ultrapassados – o meu está de certeza, tudo o que sei sobre media online aprendi em dois workshops e a ler os melhores especialistas sobre o tema, e a fazer experiências por conta própria e sozinho a maior parte do tempo. Sei de estudantes que sonham em escrever para o jornal ou revista! Eu processava a universidade que não me abrisse os olhos para o que se passa lá fora. Essa é a responsabilidade dos fabricantes de diplomas: abrir os olhos aos estudantes. Mais: criar laboratórios para desenvolver experiências impossíveis de desenvolver no mundo profissional.
A universidade é um local onde o conhecimento teórico tem que ir de mão dada com a experiência prática. As competências técnicas nunca foram tão importantes como agora. A teoria é ao mesmo tempo um trunfo e uma desvantagem, eu lembro-me que quando comecei a trabalhar os meus colegas não licenciados receberam-me calorosamente com as seguintes palavras: “Podes ter um curso mas não sabes mais que nós.” Eles tinham razão. Mas aprendi com eles e juntei ao que já sabia, e comecei a construir a partir daí.
No fundo é isto: não é preciso um diploma para se ser jornalista, mas há uma hipótese de se ser melhor se tivermos um.
Frente |
Verso
O caso português
Em Portugal a cantiga é outra. Não é exigido um diploma para se ser jornalista. Precisamos de uma carteira profissional, atribuída por uma comissão. No meu caso como licenciado em Jornalismo, preciso de ser patrocinado por dois portadores da carteira e fazer um período de estágio de um ano, para obter a carteira. Há outros tipos de condições para outros tipos de carteira,mas paga-se uma anuidade. Acho que é mais fácil ter uma licença de porte de arma.
As vantagens? Ficamos com um cartão catita que diz que somos jornalistas. Só.
Por outro lado, a comissão tem uma série de regras e castigos que castiguem quem falhe ao requerido, blá blá… Dizem que um jornalista tem que fazer o seu trabalho de acordo com as melhores práticas blá blá… pagar um cartão para me lembrar de como devo agir na minha actividade profissional é mais ridículo que ser obrigado a ter um diploma para trabalhar como jornalista, ao menos um diploma encerra algum potencial.
Contra esta lógica ridícula do cartão de jornalista há algumas coisas:
- o mercado de trabalho: nem todas as pessoas a trabalhar agora em redacções têm a carteira. Porquê? Trabalham em estágios de três meses sem receber nada e são chutados fora para entrar a remessa seguinte. Ou trabalham em condições precárias,part-time, e não fazem o tempo mínimo para obter a licença. Ou são freelancers, e nunca tiveram o tempo mínimo ou os patrocinadores para pedirem uma. Vocês entendem.
-isto não ajuda os jornalistas em nada,no sentido prático. Não é como ter um cartão que nos proteja de abusos no cumprimento do dever, ou magicamente abra portas secretas. E a parte engraçada é que a comissão exige muito aos jornalistas, mas não trata de certificar as empresas para quem eles trabalham, se pagam a horas, se a direcção promove bons padrões éticos. Isso havia de ser com o Sindicato não? Mas se tenho um sindicato, porque raio preciso de uma Comissão?
- patrocinadores, tempo à experiência…não me lixem, eu quero é trabalhar, não juntar-me a uma sociedade secreta. Os jornalistas não são pessoas especiais sabem?
O trabalho jornalístico baseia-se na premissa da liberdade de expressão, e a maioria das constituições dão este direito às pessoas. Há direitos básicos que me permitem ser jornalista, sem ter mais um cartão na carteira. A mim e a outros. Existe a questão da responsabilização aqui, mas hoje em dia, com os “próprios média” qualquer um pode ser acusado de difamação e ser processado por isso, sob a mesma figura jurídica usada para os jornalistas. Há blogs com mais leitores que alguns jornais. Toda a gente é responsabilizável. Por isso preciso de um cartão para quê? Eu não tenho um agora e não me interessa. Quis pedir o meu, mas o meu patrão atrasou o processo e deixei o trabalho porque não me pagavam. Porreiro não?
Eu não defendo que não se deve regular a actividade jornalística de todo, acho que pagando os meus impostos como jornalista devia ter os descontos no equipamento profissional, nos seguros de saúde, etc, sem cartões. E muitos desses benfícios já eram.
Judicialmente, os jornalistas são um alvo mais fácil, já que irão mexer em ninhos de vespas que irão picar com processos em tribunal. Há instituições que poderão apoiar legalmente o jornalista e a sua empresa. Não me neguem isso porque não quero um cartão.
Recentemente foi apresentada uma Carta para a Liberdade de Imprensa, como um forma de pedir menos intervenção do Estado no jornalismo. O ponto 10 põe Portugal fora de jogo.
Melhores notícias precisam de melhores jornalistas, e um bom jornalista não precisa de um papel ou um cartão a dizer que é bom que chegue. Normalmente as cunhas ajudam mais, mas um bom trabalho pode chegar.
Quais são as vossas opiniões sobre estes temas? Os jornalistas precisam de diplomas ou Carteiras? Chapéus de feltro para serem mais genuínos?
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O Lago.
Alexandre Gamela
Junho/2009
Blog: (http://olago.wordpress.com/)
PodCast: (http://codigodesconhecido.podomatic.com/)
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