#50 - Junho 2009 Voltar ao Índice
Opinião
Artigo produzido para o Espaço Releituras. Uma reflexão sobre a cultura do "jeitinho" que norteia a vida do brasileiro há várias gerações.

- ARTIGO -
REDESCOBRIR  O  BRASIL  VI
"A SÍNDROME DO NÃO DÁ NADA"



Gerson de Oliveira Nunes, em seus áureos tempos, foi brilhante como meio-armador da seleção brasileira de futebol, tri-campeã na copa do mundo de 1970. Infelizmente, em uma das escolhas que a vida lhe ofereceu, Gerson emprestou sua imagem para um fabricante de cigarros que imortalizou o dito “levar vantagem em tudo”. Implicitamente simbolizando o famoso “jeitinho brasileiro”, colocou em palavras simples nossa vocação para a corrupção. Ironicamente, o que tinha tudo para ser apenas mais uma campanha publicitária de sucesso acabou por criar a Lei de Gerson, que ofuscou os feitos do “canhotinha de ouro” para imortalizá-lo como postulante da falta de princípios éticos e morais.

Inicio o trabalho de hoje com essa pequena constatação para ilustrar algo que é fato: “na vida não construímos um futuro, construímos um passado”. E não importa o quanto relevantes possam ter sido nossos feitos, atitudes simples e aparentemente inocentes podem manchar nossa história de forma irreparável. O próprio Gerson reconheceu posteriormente que a campanha publicitária acabou por surtir um efeito maléfico, tanto para a sociedade quanto para sua carreira. Um exemplo prático de que depois que as palavras são proferidas, não pertencem mais a quem as proferiu, pertencem à história.

Engana-se quem pensa que nossas palavras e nossos atos são apagados pelo tempo. Ou, ainda, que “tudo se resolve no final”. Que a frase: “não dá nada”, tão espontaneamente dita e cada vez mais ouvida, seja um elemento absorvente de toda e qualquer consequência de atos impensados. A ”síndrome do não dá nada” parece justificar palavras e atitudes que seguem na contramão da ética, da moral e até da honestidade.

O tempo não apaga nada, ele apenas corre junto com as páginas que escrevemos. E elas permanecem lá, no livro de nossas vidas. Prontas para que alguém, a qualquer tempo, corra o dedo ao acaso e encontre lá a mesma história, que até pode, por ocasião da mudança dos tempos, parecer mais branda. Mas, ainda assim, nossa história.

O “canhotinha de ouro” será sempre um ícone do nosso esporte, que por uma decisão infeliz plantou uma semente ruim. cultivá-la é uma questão de escolha. A malandragem e a corrupção não precisam ser essa regra inquebrável que tem transformado nossa sociedade sistematicamente em algo pior. A “Lei de Gerson” já teve seu ápice. Agora, a “síndrome-do-não-dá-nada” tomou o seu lugar para justificar a escolha pelo não-ético, pelo não-moral, pelo não-honesto.

Só que isso tudo não é de agora. O "jeitinho" não nasceu com Gerson nem está piorando com a gíria da garotada de nossos dias. Veja o desabafo de um brasileiro célebre, proferido no Senado em 1914:

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver crescer as injustiças, de tanto ver agigantar-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
Ruy Barbosa (Salvador, 1849 - Petrópolis, 1923).

Redescobrir o Brasil passa por reconhecer que ética, moral e honestidade são, sim, uma questão de escolha. E são essas escolhas que definem nossos atos e sugerem nossas palavras. Nossos atos, nossas palavras... nossa história, nosso passado. Não haverá uma nação do futuro sem um passado de que possamos nos orgulhar.



Fontes de consulta

Sítio da internet: Wikipedia - http://pt.wikipedia.org/wiki/G%C3%A9rson_de_Oliveira_Nunes - acessado em 05/06/2009.

Sítio da internet: “Blog Do The Best – Série os grandes jogadores brasileiros” -
http://www.thebest.blog.br/2008/08/11/serie-os-grande-jogadores-brasileiros-gerson-canhotinha-de-ouro/ - acessado em 05/06/2009.

Sítio da internet: Policitus - http://www.politicus.org.br/ruy_barbosa.htm - acessado em 05/06/2009.


Cláudio Martins
Junho/2009
Contato com Cláudio Martins