|
- ARTIGO -
REDESCOBRIR O BRASIL VI "A SÍNDROME DO NÃO DÁ NADA"
Gerson de Oliveira Nunes, em seus áureos tempos, foi brilhante como meio-armador da seleção brasileira de futebol, tri-campeã na copa do mundo de 1970. Infelizmente, em uma das escolhas que a vida lhe ofereceu, Gerson emprestou sua imagem para um fabricante de cigarros que imortalizou o dito “levar vantagem em tudo”. Implicitamente simbolizando o famoso “jeitinho brasileiro”, colocou em palavras simples nossa vocação para a corrupção. Ironicamente, o que tinha tudo para ser apenas mais uma campanha publicitária de sucesso acabou por criar a Lei de Gerson, que ofuscou os feitos do “canhotinha de ouro” para imortalizá-lo como postulante da falta de princípios éticos e morais.
Inicio o trabalho de hoje com essa pequena constatação para ilustrar algo que é fato: “na vida não construímos um futuro, construímos um passado”. E não importa o quanto relevantes possam ter sido nossos feitos, atitudes simples e aparentemente inocentes podem manchar nossa história de forma irreparável. O próprio Gerson reconheceu posteriormente que a campanha publicitária acabou por surtir um efeito maléfico, tanto para a sociedade quanto para sua carreira. Um exemplo prático de que depois que as palavras são proferidas, não pertencem mais a quem as proferiu, pertencem à história.
Engana-se quem pensa que nossas palavras e nossos atos são apagados pelo tempo. Ou, ainda, que “tudo se resolve no final”. Que a frase: “não dá nada”, tão espontaneamente dita e cada vez mais ouvida, seja um elemento absorvente de toda e qualquer consequência de atos impensados. A ”síndrome do não dá nada” parece justificar palavras e atitudes que seguem na contramão da ética, da moral e até da honestidade.
O tempo não apaga nada, ele apenas corre junto com as páginas que escrevemos. E elas permanecem lá, no livro de nossas vidas. Prontas para que alguém, a qualquer tempo, corra o dedo ao acaso e encontre lá a mesma história, que até pode, por ocasião da mudança dos tempos, parecer mais branda. Mas, ainda assim, nossa história.
O “canhotinha de ouro” será sempre um ícone do nosso esporte, que por uma decisão infeliz plantou uma semente ruim. cultivá-la é uma questão de escolha. A malandragem e a corrupção não precisam ser essa regra inquebrável que tem transformado nossa sociedade sistematicamente em algo pior. A “Lei de Gerson” já teve seu ápice. Agora, a “síndrome-do-não-dá-nada” tomou o seu lugar para justificar a escolha pelo não-ético, pelo não-moral, pelo não-honesto.
Só que isso tudo não é de agora. O "jeitinho" não nasceu com Gerson nem está piorando com a gíria da garotada de nossos dias. Veja o desabafo de um brasileiro célebre, proferido no Senado em 1914:
"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver crescer as injustiças, de tanto ver agigantar-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto." Ruy Barbosa (Salvador, 1849 - Petrópolis, 1923).
Redescobrir o Brasil passa por reconhecer que ética, moral e honestidade são, sim, uma questão de escolha. E são essas escolhas que definem nossos atos e sugerem nossas palavras. Nossos atos, nossas palavras... nossa história, nosso passado. Não haverá uma nação do futuro sem um passado de que possamos nos orgulhar.
Série de crônicas Redescobrir o Brasil
Fontes de consulta
Sítio da internet: Wikipedia - http://pt.wikipedia.org/wiki/G%C3%A9rson_de_Oliveira_Nunes - acessado em 05/06/2009.
Sítio da internet: “Blog Do The Best – Série os grandes jogadores brasileiros” -
http://www.thebest.blog.br/2008/08/11/serie-os-grande-jogadores-brasileiros-gerson-canhotinha-de-ouro/ - acessado em 05/06/2009.
Sítio da internet: Policitus - http://www.politicus.org.br/ruy_barbosa.htm - acessado em 05/06/2009.
Cláudio Martins
Junho/2009
Contato com Cláudio Martins
|