#48 - Maio 2009 Voltar ao Índice
Cultura
Ricardo Rose é formado em jornalismo, possui cursos de gestão ambiental pela Carl Duisberg Gesellschaft e SENAC, especialização em energia, marketing e finanças. Formado em filosofia. Desde 1997 é Diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Câmara Brasil-Alemanha.

- ARTIGO -
A PROPAGANDA E A SUSTENTABILIDADE


Já se foi o tempo em que “a propaganda é a alma do negócio”. A frase ficou famosa na década de 70, mas parece não se aplicar mais aos nossos tempos. O grande público está cada vez mais informado e (consequentemente) mais cético em relação à publicidade veiculada pelas mídias. O exemplo mais recente é do setor de sustentabilidade, onde as faltas de dados objetivos sobre os problemas existentes e o apelo emocional do tema dão margem a uma propaganda mais de efeito pirotécnico, do que baseada na realidade de fatos. A grandiosidade de certos comerciais veiculados na TV, por exemplo, provavelmente acaba tendo efeito contrário; ao invés de informar e influir, acaba despertando a descrença.

A ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira edita através de seu programa Eco Finanças (www.eco-financas.org.br) o boletim “e-Meio Circulante”, que trata principalmente de temas relacionando economia e meio ambiente. Em recente edição, o boletim publicou matéria intitulada “Pesquisa mostra que população não acredita no marketing verde” (6/5/09). A matéria foi baseada na pesquisa “A visão da população brasileira sobre bancos e práticas socioambientais” realizada pela Datafolha a pedido da ONG e conclui que clientes das instituições bancárias não acreditam que os bancos desenvolvem medidas socioambientais realmente efetivas. Outra conclusão da enquete é que a propaganda acaba gerando ceticismo: para 89% dos entrevistados, as instituições bancárias gastam mais em anúncios do que em ações efetivas. No total, foram citados 12 grandes bancos, entre públicos e privados. Segundo a matéria, durante a pesquisa foram feitas 2.055 entrevistas entre os dias 2 e 14 de abril, com brasileiros acima de 18 anos de todas as regiões do país e possuindo telefone fixo. A maior parte dos entrevistados informou que daria preferência a bancos que os comunicassem sobre os impactos socioambientais de seus investimentos. Com relação à questão do meio ambiente, 81% opinaram que as instituições bancárias não se empenham o suficiente e 27% disseram que os bancos poderiam exigir que em seus investimentos fossem, no mínimo, respeitadas as leis ambientais. A matéria cita declaração do diretor executivo de estratégia de marca e comunicação corporativa do grupo Santander Brasil ao jornal Valor Econômico, dizendo que “a publicidade, num mundo onde as pessoas têm cada vez mais informações, ficou um pouco para trás e tem que se reinventar. A sustentabilidade é nova neste cenário e muita gente vem usando isto de forma oportunista”.

A pesquisa, todavia, revela uma grande contradição: os entrevistados apontam o Banco do Brasil e o Bradesco como financiadores da degradação ambiental e ao mesmo tempo como os principais responsáveis pelas boas práticas. Na região norte e centro-oeste, por exemplo, os bancos do Brasil e da Amazônia tiveram, na mesma pesquisa, a melhor avaliação em relação às práticas ambientais e sociais e a mais alta classificação na pergunta “Banco que financia mais a destruição ambiental”. Apesar das incongruências nas respostas, a pesquisa mostrou que o nível de conscientização e de crítica está aumentando entre a população. A propaganda precisa ser mais concreta, apresentando mais fatos e menos imagens grandiosas, que acabam gerando suspeitas.

Ricardo Rose
Maio/2009
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