#47 - Maio 2009 Voltar ao Índice
Opinião
Artigo produzido para o Espaço Releituras. Mais uma proposta de reflexão quanto à necessidade de se redescobrir o Brasil, desta vez abordando os serviços públicos.

- ARTIGO -
REDESCOBRIR  O  BRASIL  V
"O TEMPO NÃO ESPERA NINGUÉM"



Você, meu caro leitor, já reparou que em todas as eleições pessoas idosas são usadas como exemplo de consciência cívica, sendo filmadas e fotografadas em seus passos trêmulos em direção da urna? Pois bem, há alguns meses conheci um senhor de 69 anos que não vota há 40! E fala abertamente que não perde seu tempo com isso. Frente ao que temos visto e lido por aí, será que esse elegante senhor está errado? Vamos ao artigo de hoje...

Durante muito tempo, mais ou menos 20 anos, utilizei uma técnica simples para a identificação de defeitos em equipamentos eletrônicos e computadores que acredito seja importante dividir com o leitor (sim, sou do tempo em que se consertava computadores encontrando e substituindo os chips e não trocando os módulos aleatoriamente até acertar onde o defeito estava).

Primeiro é preciso entender o conceito. Imagine que qualquer operação que se execute, seja na indústria, comércio ou dentro de casa; seja na segurança pública, na saúde ou na educação, necessita de dois fatores: o suporte e o serviço.O suporte é aquele componente que dá condições para o serviço ser prestado, o serviço é a ação propriamente dita.

Por exemplo, para que a concessionária de energia elétrica forneça luz ao consumidor é necessário que suportes específicos estejam disponíveis. Ela com a infraestrutura de geração (a rede entre outras coisas) e ele com a infraestrutura de consumo (poste de luz, caixa para o medidor, fiação domiciliar etc).

No momento em que o consumidor sente que “faltou luz”, ele automaticamente busca por essas duas informações: se o serviço foi interrompido ou se os suportes estão de alguma forma danificados.

Nos serviços públicos não é diferente. Ouve-se nas campanhas eleitorais que metas de governo serão saúde, educação, segurança pública, geração de emprego e de moradia. Historicamente, necessidades básicas dos cidadãos de qualquer lugar do mundo.

Porém, é importante lembrar que prédios escolares não educam sozinhos. Nem hospitais e postos de saúde atendem a população sem médicos e enfermeiros suficientes. E que agendamentos de consultas e exames, gerenciados por sistemas computacionais complexos, acabam com as filas físicas, mas geram filas piores: as filas virtuais. Uma fila que impede o cidadão de ter uma noção real do problema, já que antes ele via com seus próprios olhos uma multidão na sua frente e outra atrás de si. Uma fila silenciosa. Uma forma de fazer com que o cidadão se cale frente ao marasmo do serviço público.

Alías, quanto aos sistemas computacionais que invadem o serviço de saúde, tenho uma experiência no mínimo interessante: foi quando o médico que me assistia se viu sem ação em frente à tela do computador logo após tentar solicitar uma curva glicêmica, já que eu apresentava sinais de diabetes tipo 2. O sistema simplesmente não ia adiante porque exigia dados da minha gestação!

Outros funcionários do posto de saúde foram chamados e um pequeno grupo de pessoas tentava resolver o problema, que no final das contas era simples: para o sistema, ou você era gestante, ou não precisava do exame. Ponto final! E, como gestar um bebê está além das limitações dos mamíferos do sexo masculino, foi ponto final mesmo!

A solução veio de forma simples e direta, um acordo entre o médico e eu: como já teria de fazer um exame particular (uma ecografia de abdomem – que no sistema não tinha nem previsão de quantos meses levaria para “agendar”) não custava nada pagar pelo tal exame de glicemia também.

Essa é a diferença entre suportes e serviços. Postos de saúde enquanto prédios são apenas suportes onde serviços de saúde devem ser prestados. Hospitais são apenas suportes necessários a médicos e enfermeiros para que ofereçam tratamento de saúde à população. Bem como exames e remédios são suportes para que esses profissionais prestem seus serviços. Escolas também são suportes, ao professor. Construí-las é apenas um dos passos necessários para atender ao quesito “educação” de que promessas de campanha tanto falam.

Alguém já disse que “governar é construir estradas”. Infelizmente faltou dizer que não basta construir caminhos novos, é preciso manter os existentes em condições de uso. Enquanto isso, o tempo vai passando e as condições de vida do povo brasileiro se deteriorando.

Voltando àquele senhor de 69 anos, fico imaginando os motivos que levam alguém que conhece diversos países da Europa, e que se intitula um patriota legítimo, a se posicionar dessa forma. Também não sei se a capa da Revista Veja é uma sugestão ou uma constatação. Só sei que “o tempo não espera ninguém” (1). Seja por falta de suportes ou por falta de serviços (ou por falta de vontade) o tempo está passando e a sociedade brasileira se tornando uma multidão de desamparados.

Redescobrir o Brasil passa por substituir representantes ineficazes. Colocar no comando das cidades, dos estados e da nação gente comprometida com o país e com todos que vivem aqui. Substituir os seguidores de paradigmas podres por gente que encare o trabalho para o qual foi eleita como compromisso e não apenas uma forma de “se dar bem”.



1 – Da peça teatral “Um sonho de menina no vale encantado” de Leandro Martins, encenada em Curitiba em maio de 2008 pela equipe da Casa Do Sol Nascente; fala de Gepeto, interpretado por Mário Norberto Cassal.

Cláudio Martins
Maio/2009
Contato com Cláudio Martins