#41 - Março 2009 Voltar ao Índice
Opinião
Artigo produzido para o Espaço Releituras. (Mais) Uma abordagem sobre a falta de qualidade de ensino no Brasil e seus reflexos na sociedade.

- ARTIGO -
REDESCOBRIR  O  BRASIL  III - CARTA AOS PROFESSORES


Na década de 80, quando passei pelos bancos da faculdade na minha querida UNISINOS (Universidade do Vale do Rio dos Sinos – São Leopoldo – RS), tinha um professor que exigia nossos trabalhos redigidos a punho. Isso para conferir nossa grafia com as provas, sempre discursivas, que aplicava permitindo utilizar aqueles trabalhos como consulta. Na época, dez entre dez de nós queriam trucidá-lo. Mas hoje, vendo o estado de abandono em que o Brasil se encontra, fico me perguntando se aquele tipo de conduta não estava certo.

Em nossos dias o analfabetismo funcional é uma realidade. Convivemos com pessoas graduadas que não conseguem ler e interpretar uma frase com mais de 15 palavras. Redigir um e-mail coerente torna-se uma tarefa sofrida (compor uma carta, então...). O pior é que quanto maior o nível de incultura de um povo, mais violento ele fica. Quanto mais afastado o jovem estiver dos bancos do aprendizado, mais espaço se dá para a droga, para a violência e para a mais avassaladora das pragas que devoram este país: a corrupção.

Perdoem-me professoras e professores (tenho vários na família e minha filha se esforça para se tornar uma), mas acredito que muito desse estado desastroso em que a educação se encontra se deve em grande parte pela falta, por parte dos docentes, da exigência e da imposição de um ensino consistente. Isso em todos os níveis, desde as primeiras séries até o doutorado.

Quanto mais as crianças e os jovens (e seus pais, também jovens) presenciam o caos instaurado pela bandidagem (que simplesmente ignora a polícia), pela ação de empresários sem o menor escrúpulo (sendo presos pela polícia e imediatamente sendo mandados soltar pelo judiciário) e pela dura lex que sed lex (1) apenas para alguns, menos importância o brasileiro dá ao conhecimento.

Para um país, quatro, oito ou 12 anos é um período de tempo muito pequeno. Políticas de abrangência continental (sim, nosso país tem proporções continentais) surtem completamente seus efeitos depois de décadas de aplicação sistemática. Olhos que presenciaram um ensino consistente podem ver num horizonte que se avizinha, e que chegará em dez ou 12 anos, um cenário entristecedor.

Redescobrir o Brasil passa pelo professor bem treinado, valorizado e devidamente remunerado por seu trabalho. Passa por escolas limpas, seguras, bem aparelhadas, sintonizadas nos dias atuais e em técnicas modernas de ensino. Mas passa também pelo docente exigindo de seus superiores políticas de ensino baseados na qualidade do aprendizado, não apenas no número surdo e mudo da freqüência escolar.

Talvez o mundo de faz-de-conta seja mesmo no Brasil. Escolas pagam mal aos professores, mas fingem que está tudo bem porque hoje é assim que as coisas funcionam. Professores insatisfeitos com seus ganhos e com as condições de trabalho ensinam mal, mas fingem que está tudo bem, afinal foi nisso que tudo se tornou e sozinho ninguém muda o mundo. Alunos não aprendem o que deviam aprender e mudam o foco de suas vidas para o prazer imediato e acham que é dessa forma que fica tudo bem (que culpa eles têm se não conhecem outra realidade?). E, por fim, o governante olha relatórios que comprovam, com a frieza dos números, que sim, está tudo bem, porque "nunca antes neste país..."

Enfim, o carnaval já passou. Agora é hora de pensar no que realmente fará diferença: o carnaval do ano que vem!



1 – Dura lex sed lex – do latim: A lei é dura, mas é lei.

Cláudio Martins
Março/2009
Contato com Cláudio Martins