#4 - Abril 2008 Voltar ao Índice
Opinião & Cultura
Alexandre Gamela é jornalista freelancer, blogger, podcaster, e adepto das novas tecnologias de comunicação. Tem experiência em rádio, televisão, imprensa e aptidões multimídia. Também trabalha como escritor freelancer. Reside em Coimbra - Portugal.

- ARTIGO -
O NOSSO ROMANCE COM OS JORNAIS

(Postado no Blog "O LAGO" em 22 de março)


Durante os largos períodos de tempo em que estive desempregado, aprendi a apreciar e a viver sem os pequenos luxos da vida: comprar livros, jantar fora, ir ao cinema. Mas de todos, o que mais senti falta foi o de comprar o jornal de manhã cedo e ir tomar o pequeno almoço num café.

Era o princípio ideal, o momento de arranque para enfrentar o dia. Um café, as notícias no nosso jornal favorito, o primeiro cigarro da manhã. E ao nosso lado alguém fazia o mesmo, partilhavam-se secções entre grupos de amigos, discutia-se as páginas de desporto, emprestava-se um exemplar a quem não tinha comprado. Os próprios cafés têm dois ou três jornais para os clientes, por isso, mesmo com pouco dinheiro, ainda dava para ir beber o café e ler o jornal, antes de o passar para o próximo. Fazem-se caras de desânimo quando alguém já fez as palavras cruzadas, ou não se despacham a ler.

A nossa relação com o papel de jornal é na verdade um caso amoroso, é algo de sensual na forma como viramos as páginas e ainda sentimos o cheiro da tinta, na maneira como nos aproximamos dos outros, como os avaliamos pelo título que trazem debaixo do braço. É uma relação efémera com cada exemplar que se renova no número do dia seguinte, quando os outros encontram destino a cobrir montras de lojas vazias, a embrulhar louças numa mudança, a forrar o chão de uma divisão a ser pintada. Por isso não acredito na morte dos jornais.

Mesmo com o aumento de estabelecimentos que oferecem wifi, são poucos os que andam com um portátil para todo o lado, na maior parte do mundo. Com a internet, abriram-se as possibilidades, mas a comunidade que a usa ainda é uma minoria, apesar do seu crescimento exponencial. Os números das tiragens estão a descer, mas não estarão reduzidos a zero tão cedo. Há dois anos atrás houve que escrevesse que os jornais não estavam a morrer mas a cometer suicídio. Há uma semana atrás essa ideia foi repetida. E o declínio dos jornais começa há 80 anos com o aparecimento da rádio.

Como em qualquer actividade competitiva, nem sempre os melhores sobrevivem, mas desta vez é possível que isso aconteça, desde que não se subestime o público. Todos queremos notícias, e a maioria gosta de ser fiel ao que conhece. Somos criaturas de hábitos. E o mais divertido é que muitos desses hábitos são partilhados por muita gente de diferentes países, culturas e origens.

Por isso é muito interessante ver como o Ryan Sholin e a Mindy MacAdams falam da forma como “usam/usavam” os jornais em papel. É um acto ritualizado, que já não praticam, mas eles são ainda a minoria. A maioria são os infoexcluídos, os que não têm um computador, os que continuam a precisar que os jornais e os jornalistas cumpram a sua função: informar, criar uma consciência colectiva, alertar para os abusos e questionar as fugas de quem é responsável pelo bem estar comum, relatar e manter a identidade de uma comunidade local, nacional, ou social.

Os jornais precisam de evoluir dentro dos novos media apenas para manter essas funções, como mantiveram depois do aparecimento da rádio e da televisão. Hélder Bastos, na entrevista que me concedeu, diz que “os catastrofistas sempre negligenciaram aquilo a que Roger Fidler chama a mediamorfose, ou seja, a capacidade que os media têm de se adaptar ao aparecimento de novos media. Acresce que, pelas mais diversas razões, nem toda a gente se “converte” aos novos media.” Trata-se apenas da sobrevivência do mais apto, e como sempre, os mais aptos são os que melhor se adaptam.

E acredito que antes de chegar o dia em que se blogará o epitáfio do jornal em papel, o nosso nome será impresso nas páginas do obituário. O que espero que seja realmente daqui a muito, muito tempo.

Esta semana, saiam cedo, comprem o jornal no quiosque, bebam um bom café, e aproveitem o momento. Entretanto, contem-me qual é a vossa relação com o jornal em papel.

Alexandre Gamela
Março/2008
Blog: (http://olago.wordpress.com/)
PodCast: (http://codigodesconhecido.podomatic.com/)