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- POEMA -
A TODOS OS MEUS AMIGOS
(Canto de louvor a Barack Obama)
Lê e aprecia o acontecer da história.
Aprecia este dia, a beleza das palavras,
Os milhões de pessoas marchando
ao longo de uma nova avenida,
maior e mais comprida do que a de Pensilvânia
e que foi aberta pelo forte compromisso de Obama
na esperança de um mundo novo,
na conjunção da alegria e do amor,
porque uma nova era acaba de nascer
e todos nós fomos convocados
por este homem brilhante e caloroso
para cumprirmos o nosso dever de alcançarmos
o sonho da humanidade que está por realizar,
de vivermos em paz por todo o mundo
e dentro de cada um de nós.
As lágrimas corriam-me pelas faces
enquanto o ouvia, e um doce calor
envolvia-me o coração.
Subitamente, senti-me como se eu fosse um ser gigantesco,
tocando os céus com os meus braços bem abertos,
as pernas afastadas,
firmemente plantadas no chão duro
do medo e do desconforto dos nossos dias.
Eis que, do fundo de minha alma,
onde corre em permanência um rio
através de um vale verde,
das raízes dos canteiros floridos,
primeiro, um murmúrio apenas
depois, a pouco e pouco
tornando-se um grito ensurdecedor
de desespero e esperança,
eu gritei, e o meu grito ecoou através de todo o universo:
SIM, NÓS PODEMOS.
NÓS PODEMOS MUDARMO-NOS A NÓS MESMOS
E MUDAR O MUNDO.
A hora chegou.
Amanhã será tarde demais.
Lá fora, na minha janela, enquanto escrevo estas palavras,
numa fria manhã de Inverno,
numa cidadezinha tranquila
no meio da planície alentejana ,
ouço o que parecia ser o suave bater de asas do sol.
Mas era afinal a mão de Elizabeth Alexander
estendida através da vidraça,
puxando por mim para me conduzir
para o reino da luz.
Espero poder em breve sentir
os vossos passos
seguindo na mesma direcção.
António Simões, Estremoz, Janeiro 21, 2009
CANTO DE LOUVOR AO DIA
(na tomada de posse do Presidente Barack Obama)
Andamos todos os dias a tratar das nossas vidas,
cruzamo-nos uns com os outros, trocando ou não
olhares, quase a falarmos ou falando mesmo.
Há barulho à nossa volta. Em todo o lado há barulho
e plantas espinhosas, espinhos e ruídos insuportáveis,
os nossos antepassados presentes em nossas línguas.
Alguém arranja uma bainha, remenda
um buraco num uniforme, remenda um pneu,
arranja as coisas que precisam ser arranjadas.
Alguém tenta algures fazer música,
com um par de colheres de madeira num bidão de óleo,
com um violoncelo, caixa de ressonância, gaita de beiços, voz.
Uma mulher e seu filho estão à espera do autocarro.
Um fazendeiro observa o céu que anuncia mudança.
Um professor diz, Peguem nos vossos lápis. Comecem a trabalhar.
Encontramo-nos uns aos outros nas palavras, palavras
cobertas de espinhos, ou macias, segredadas ou declamadas,
palavras para considerar ou reconsiderar.
Atravessamos estradas poeirentas e auto-estradas que atestam
a vontade de alguém e de quaisquer outros que disseram,
Tenho de ver o que está do outro lado.
Sei que há qualquer coisa melhor lá mais adiante.
Precisamos de encontrar um lugar onde nos sintamos seguros.
Caminhamos para algo que ainda não conseguimos ver.
Digamos simplesmente: muitos deram a vida por este dia.
Cantai os nomes dos mortos que nos trouxeram até aqui,
os que colocaram linhas de caminho de ferro, ergueram pontes,
apanharam algodão e alface, construiram
tijolo a tijolo os edifícios reluzentes
que eles próprios manteriam limpos e onde trabalhariam.
Canto de louvor à luta, canto de louvor ao dia,
Canto de louvor a cada nota escrita à mão ,
imaginando-a sobre as mesas das cozinhas.
Alguns vivem pelo ama teu próximo como a ti mesmo, outros
pelo não faças mal a ninguém ou não queiras mais do que
precisas. Como não há-de ser assim, se o amor é a mais poderosa das palavras?
Amor para além do conjugal, filial, patriótico,
amor donde a luz jorra e alastra ,
amor que não consente agravos antecipados.
Na nítida cintilação deste dia, neste ar de Inverno,
Qualquer coisa pode ser feita, qualquer frase ser iniciada.
Mesmo perto, mesmo à beira , mesmo no ponto de viragem,
Canto de louvor ao caminharmos em frente envoltos nessa luz.
Elizabeth Alexander
Trad. de António Simões, Janeiro 25, 2009
Elisabeth Alexander
Elizabeth Alexander, foi convidada por Barack Obama para escrever o poema habitulamente lido nos últimos tempos na tomada de posse. Nasceu em 1962, em Harlem, Nova Iorque, e cresceu em Washington, D.C.. A sua colectânea de versos mais recente foi finalista do Pulitzer Prize.
António Simões
Fevereiro/2009
Contato com António Simões
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