#35 - Fevereiro 2009 Voltar ao Índice
Opinião
Artigo produzido para o Espaço Releituras. Mais uma abordagem sobre a crise em que se questiona o posicionamento dos formadores de opinião dos meios de comunicação de massa.

- ARTIGO -
REDESCOBRIR  O  BRASIL  II - CARTA AOS EDITORES


Embora as crises econômicas sejam cíclicas e estudadas por especialistas há décadas, parece que a maior parte das pessoas toma a crise mundial como algo inusitado. Talvez o inusitado seja a forma como, mesmo os economistas tendo a exata noção das conseqüências de uma especulação galopante, investidores dos mais variados calibres tenham se atirado à incerteza como se nada pudesse dar errado.

Sejam quais forem os motivos, fazia muito tempo que um único assunto não era tão explorado pela mídia como um todo. Indo desde o alardeamento extremista do caos, quase terrorista, a receitas óbvias de como não gastar um dinheiro que não se tem, não comprando bens e serviços de que não se precisa, utilizando para isso minutos preciosos do horário nobre das emissoras do Brasil.

O que mais me chama a atenção é o fato da timidez com que são mostradas matérias sobre o bravo povo brasileiro criando alternativas. De empresários buscando freneticamente formas de driblar esse momento difícil (só mais um) e manter empregos. Mostra-se números, gráficos e históricos, mas pouco se fala sobre homens e mulheres arregaçando as mangas e buscando o sustento de formas alternativas. Cortar gastos desnecessários e ponderar despesas básicas é uma tarefa elementar que até crianças e analfabetos fazem por instinto de sobrevivência, não é necessário que os telejornais digam como fazer.

Ao invés disso, bem poderiam utilizar esse tempo trazendo idéias de como “se virar” de verdade até que a tempestade passe. Colocar as mentes brilhantes de comentaristas, que comentam o óbvio, para trabalhar a favor de uma consciência de união, de cooperação mútua, não apregoar o “salve-se quem puder”. Isso não ajuda.

Demissões e reduções de jornadas e salários não são as únicas medidas que empresas têm tomado nos últimos meses. E mesmo essas, não devem ser tomadas como elementos definitivos na vida do trabalhador. Ajustar os níveis de oferta de trabalho de acordo com a demanda é uma obrigação do empresário para manter a empresa funcionando. Caso contrário, todos, e não apenas uma parte dos trabalhadores, ficam sem emprego.

Demitir ou reduzir a jornada não é uma atitude tomada pura e simplesmente para reduzir o ganho do assalariado e maximizar o ganho do patrão. Antes de deixar que comentários assim sejam jogados na mídia, seria importante que os respectivos editores desses veículos ponderassem que a esmagadora maioria das empresas busca seus ganhos na quantidade (e sanidade) de produção e que quanto mais trabalhadores tiverem de ser contratados pelo aumento da demanda, maior estarão sendo seus ganhos.

Há também o fato de que a assim chamada crise global não foi iniciada por empresários que buscam a produção, mas por especuladores. Permitir que comentários extremistas e catastróficos sejam veiculados sem o filtro do bom senso só aumenta a sensação de insegurança de uma população já receosa, composta pelos que conheceram os tempos de inflação desenfreada, e por isso a temem, e pelos que são jovens demais para saber como foram aqueles tempos e, por isso, a temem também.

Tempos de crise requerem atitudes conscientes e ponderadas. Julgo que jornalistas comentaristas e, principalmente, editores dos meios de comunicação de massa devem assumir seu papel de agentes responsáveis pela formação de opinião e se empenhem, dentro do compromisso com a informação verdadeira, em evitar a estagnação econômica gerada pelo medo. Afinal, como já disse Sérgio Vieira de Melo, “o medo é mau conselheiro”.

Some-se a isso a dura realidade de uma população que não lê livros que não sejam de auto-ajuda, que imita cegamente modas e modismos ditados por telenovelas e que considera tudo que é dito nos telejornais como verdade absoluta e tem-se um retrato claro da capacidade de julgamento do mais amigável dos povos: o brasileiro.

Redescobrir o Brasil passa por reacender o patriotismo. Por nos importarmos com quem consome o que produzimos e com quem produz o que consumimos. Por entender que o Mercado define as regras do Jogo, mas que antes de ser um mercado, um país deve ser uma Nação, e que a realidade dos que vivem nela não se chama jogo, chama-se Vida.



Cláudio Martins
Fevereiro/2009
Contato com Cláudio Martins