A falta de visão estratégica por parte de indivíduos ou grupos, vem acarretando no
decorrer de nossa história, enormes prejuízos para a nação.
Um exemplo clássico foi a transformação da Fábrica Nacional de Motores –
FNM, que iniciou em 1946 sua produção, em instalações moderníssimas. Em 19 de agosto
daquele ano, voou o primeiro avião do modelo Vulttee BT-15 com um motor de sua
fabricação, e no ano seguinte foram equipados nove BT-15 com motores nacionais. No
entanto, em maio de 1946, em uma reunião entre o Ministro da Fazenda Gastão Vidigal, o
Ministro da Aeronáutica Armando Figueira de Almeida Trompowsky, o Ministro de Viação
e Obras Públicas Edmundo de Macedo Soares e Silva e o diretor da fábrica Brigadeiro
Guedes Muniz, o Ministro da Aeronáutica declarou possuir em estoque 180 motores Wrigth
R-975-11. Isso foi a sentença de morte da Fábrica. Diante do fato e sem vontade de dar
curso ao projeto, o presidente Eurico Gaspar Dutra determinou a suspensão da fabricação
de motores de avião pela empresa.

Hoje o Brasil não fabrica nem os motores dos pequenos aviões dos aeroclubes,
apesar da enorme frota nacional de aeronaves leves, o que se supõe um grande mercado.
Outro exemplo da falta de visão está relacionado ao
Neiva Lanceiro, do final da
década de sessenta. Era uma aeronave civil baseada no bem sucedido
Neiva Regente, do
qual a Força Aérea Brasileira adquiriu 121 unidades em duas versões entre 1964 e 1971,
sendo que alguns ainda se encontram operativos.
Nesta ocasião, perdemos a oportunidade de abastecer o mercado interno com o
Neiva Lanceiro, o que poderia ter sido uma solução nacional em vez de se importar dos
Estados Unidos aeronaves do tipo
Cessna 172 e outros. Os americanos aproveitaram-se
do enorme mercado brasileiro de aviões, sendo que na década de sessenta éramos o maior
consumidor externo de aviões de 4 a 8 lugares por eles fabricados. O Brasil importou mais
de 2000 aviões de pequeno porte num valor superior a US$ 150 milhões, entre 1963 e
1974.

Atualmente, na Holanda, está sendo estudada a reabertura da linha de montagem da
Fokker, para voltar a produzir os
Fokker 100. A Fokker deixou de fabricar aeronaves após
a sua falência em 1996 e hoje suas instalações pertencem ao
Stork Aerospace Group,
responsável pelo suporte para a manutenção dos Fokker ainda em operação.
O
Fokker 100 se tornou um avião bastante popular entre as companhias de baixas
tarifas, devido aos seus baixos custos de aquisição e leasing (dois milhões de dólares em
média para compra e 100 mil dólares mensais para leasing). Os concorrentes como o
Embraer 190/195, Boeing 717 e Airbus A-318, são muito mais caros e ainda não estão
disponíveis no mercado de segunda mão.
A companhia brasileira
Ocean Air acaba de adquirir 29 aviões
Fokker 100 da
American Airlines que se encontravam parados deste os atentados de 11 de setembro de
2001, que provocou forte retração na aviação comercial americana.
A decisão de reabrir a linha de montagem da Fokker pode ser encorajada por um
possível pedido de aproximadamente 80 aeronaves por parte da companhia holandesa
KLM que anunciou a necessidade desse número de aviões da classe de 100 assentos. Esta
decisão se for tomada, permitirá a correção do grave erro do governo holandês, que foi o de
permitir o fechamento da histórica companhia Fokker.

A Indústria Aeronáutica se destaca pela grande complexidade tecnológica que
envolve a construção de aviões.
As nações poderosas defendem com particular interesse a sua indústria aeronáutica.
Os Estados Unidos acabam de cancelar a concorrência de uma versão de guerra eletrônica
de aviões
Embraer-145, para destinar a compra ao fabricante local, a Boeing, que
fornecerá uma versão do avião Boeing 737-600.
Embraer

A venda de aviões
AMX-T e
Super Tucano da Embraer para a Venezuela foi
interrompida por pressões do governo norte americano. Também um pedido de aviões
comerciais da linha 170/190 para a Iran Air foi vetado.
O governo americano também pressionou, sem sucesso, a Colômbia, para tentar
impedir a venda dos Super Tucanos para esse país, com a intenção de favorecer o avião
Suíço/Americano
Raytheon-Beech T-6A Texan II. A pressão atrasou bastante o negócio.

O Brasil, entretanto, rejeitou a produção de uma versão de patrulha marítima do
Embraer 145 para adquirir um lote de veteranos aviões
Lockheed P-3A Orion fabricados
na década de sessenta, que estavam armazenados no deserto americano e que serão
modernizados na Espanha.
Se o
Embraer 145 não era adequado às nossas necessidades, então que se
desenvolva uma versão de patrulha marítima do
Embraer 190. Estamos esperando desde
1976 por um substituto para os Neptune, não poderíamos esperar um pouco mais?

Nossas companhias aéreas não podem adquirir aviões nacionais não porque sejam
os mais caros ou porque são ineficientes e sim por um absurdo fiscal que faz com que os
aviões importados não paguem impostos e os nossos são pesadamente taxados, lembrando
em muito a abertura dos portos feita por Don João VI no século XIX, que dava condições
fiscais mais favoráveis aos produtos ingleses que aos produtos portugueses que entravam
no Brasil.
A companhia nacional Rio Sul chegou a operar uma frota considerável de aeronaves
Embraer 145, mas teve que entrega-las ao BNDES por uma questão fiscal. Estes aviões
foram depois repassados a FAB.

No momento a companhia aérea TAM negocia a compra de aproximadamente 25
aeronaves
Embraer 195 e a compra ainda não pode ser anunciado por causa do ICMS que
deveria incidir sobre os aviões e que não foi ainda suspenso.
As indústrias aeronáuticas no mundo somente se mantêm com o apoio de seus
respectivos Estados. Quer seja com subsídios, quer seja com pedidos militares ou outros
mecanismos.
As nações poderosas apóiam e defendem com “unhas e dentes” suas indústrias
aeronáuticas já que sabem há muitos anos que o custo deste apoio é compensado pela
independência tecnológica e pelas exportações.
Foi uma acertada percepção deste fato o que levou à criação da Embraer pelo Estado
Brasileiro no final da década de sessenta, mas a falta de visão estratégica quase a levou à
bancarrota, no início da década de noventa, quando foi privatizada.
No Brasil, deveríamos optar por utilizar aeronaves nacionais sempre que isso fosse
tecnicamente possível. Nosso mercado interno é considerável e a Embraer depende
praticamente apenas das exportações para manter sua linha de aviões comerciais e em razão
disso não está equiparada às suas concorrentes, que recebem mais apoio de seus respectivos
países.
Roberto Portella Bertazzo
Veiculação pelo Espaço Releituras em Janeiro de 2009
Veiculação pelo Site da Universidade Federal de Juiz de Fora em Fevereiro de 2006
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Artigo original| |
Contato com Roberto Bertazzo|