#30 - Dezembro 2008 Voltar ao Índice
Opinião
Artigo produzido para o Espaço Releituras. Uma visão crítica sobre dois comportamentos distintos de integrantes da mesma corporação.

- ARTIGO -
O GUERREIRO E O BANDIDO


Quis o destino que o trigésimo artigo do Espaço Releituras fosse o último de 2008 e que coubesse a mim escrevê-lo. Não há como expressar a alegria que tive em providenciar este “cantinho” de leituras e perceber que ainda há leitores dispostos a dispor de seu tempo com uma mídia estática como o texto. Com ele tivemos a oportunidade de fazer amigos e de ajudar pessoas em algumas necessidades. Fomos lidos na América do Sul, na Europa e na África. E conseguimos, na medida do nosso tamanho, proliferar o conhecimento, a opinião e diferentes formas de expressão. Espero que tenhamos conseguido semear o espírito crítico, a curiosidade, a inquietação frente ao pacote massificado de informação a que somos submetidos todos os dias.

A bem da verdade, deveria ter escrito estas linhas no início de dezembro, mas os acontecimentos trágicos ocorridos no estado de Santa Catarina me tiraram o ímpeto da discussão e da crítica. Como na maioria dos brasileiros, um sentimento escuso, um misto de impotência, tristeza e irritação, tomaram conta da parte emocional da minha mente, impedindo que palavras concisas aparecessem. Pudemos ver o retrato do desespero de pessoas que perderam suas casas, que nem podem ser reconstruídas porque os terrenos sob elas desapareceram junto. E pior que a sensação de perder o que se pode readquirir é a dura realidade das vidas que se foram.

Talvez a imagem que mais me marcou, e que certamente irá me acompanhar pelo resto de meus dias, é a de um guerreiro do exército retirando do helicóptero de salvamento uma menina, que talvez tivesse uns três ou quatro anos, segurando-a firme com um dos braços, mas sem esquecer de retirar também da aeronave a pequena boneca de plástico, que tinha cabelos louros e uma roupinha cor-de-rosa, e entregar à menina para que segurasse firme. E ela assim o fez. Então o guerreiro correu para levá-la a um lugar seguro, longe das pás do rotor que girava forte sobre suas cabeças.

Fico me perguntando o que se passava pela cabeça daquele guerreiro da paz, ao retirar do inferno de águas e lama alguém que poderia muito bem ser uma filha sua. E não esquecer que aquela pessoinha tem sentimentos, e que naquele momento a boneca de plástico, loura e vestida de rosa, pudesse ser, talvez, o único porto seguro que ela tivesse. Alguém que a ingenuidade da infância poderia confiar. Alguém a quem abraçar à noite, longe da segurança de seu lar, que não existe mais.

E com o passar dos dias, no mesmo palco da mesma cidade do mesmo estado de Santa Catarina, vestindo a mesma farda, servindo ao mesmo povo desalojado, engajados na mesma causa da reconstrução, bandidos infiltrados no exército são flagrados roubando os donativos que um país inteiro se mobilizou para arrecadar, numa das maiores manifestações de solidariedade que nossos 500 anos de história têm notícia.

Como pode a mesma farda camuflada abrigar duas pessoas com índoles tão diferente? E mesmo que índole não contasse nada em momentos assim, como pode alguém, que pelo sotaque é catarinense, deixar de prover o que vestir a semelhantes seus que perderam tudo para a fúria das águas? E deixando a farda de lado, como pode pessoas se aproveitarem da situação de calamidade para tirar proveito próprio como a imprensa mostrou tão exaustivamente? Acho que nunca vou conseguir saber.

Queria colocar frente a frente o guerreiro e o bandido. Queria que aquele guerreiro, que é capaz de superar a extenuação do trabalho ininterrupto e que vai muito, muito além do que sua obrigação prediz para salvar pessoas, e não só pessoas, mas identidades colocadas à prova em tão tenra idade. Capaz de enrijecer cada músculo do corpo em uma explosão de força e, no entanto, lembrar que uma criança, em qualquer situação, é uma criança. Que uma doce menina, por mais dramática que seja sua condição, é uma doce menina, e que a sua amiga boneca é tão necessária e merecedora de salvamento quanto ela própria. Queria que esse guerreiro olhasse bem fundo nos olhos do bandido e lhe dissesse o que me entala na garganta como se fosse um nó.

Mas acho que o guerreiro não falaria nada. Não perderia seu tempo com um traste que se infiltrou nas forças armadas para tirar proveito próprio. O guerreiro de verdade vai apenas ignorá-lo; vai sentar em seu posto e esperar. Vai aguardar pelo próximo chamado, pela próxima vez de colocar-se à disposição de quem precisa. E vai rezar palavras de improviso, sob o barulho intenso que as pás do rotor principal fazem, somado ao assovio ensurdecedor do motor no teto da aeronave. Vai pedir a Deus para que cheguem ao destino a tempo. Vai pedir a Deus que lhe dê força para que seja capaz e que seja útil... e que os bandidos que envergonham a farda e a nação, pelos menos, saiam do caminho...

A todos os militares e voluntários que tiveram e ainda têm a oportunidade de ajudar o povo de Santa Catarina, expresso nesse momento, em nome do Espaço Releituras, de todos os que tiveram seus trabalhos publicados aqui e dos que nos lêem regularmente, nosso muito obrigado.

Ao povo de Santa Catarina assolado pela devastação das águas, desejamos saúde, força e fé. Porque fé e perseverança, talvez sejam palavras diferentes, mas com o mesmo significado.

Aos autores dos trabalhos aqui publicados, meu sincero agradecimento. Espero ter a honra de continuar publicando aqui seus textos.

Meu especial agradecimento ao nosso querido Ricardo Rose, que nos brinda mensalmente com seu conhecimento e é incansável em sua lida diária.

Que 2009 seja um ano alegre e próspero para todos nós e que nos encontre e nos acompanhe gozando de muita saúde, sabedoria e discernimento.

Um grande abraço a todos.

Cláudio Martins
Dezembro/2008
Contato com Cláudio Martins