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- ARTIGO -
TRIPÉ DA IDENTIDADE - PARTE II
UMA QUESTÃO DE CONTEXTO
No artigo inicial sobre o Tripé da Identidade, discutimos sobre a identidade como o resultado da composição de três elementos: o conteúdo, a ética e a estética. Nele vimos que conteúdo e estética estão intimamente relacionados e que são facilmente identificáveis. Já a ética, por não ser um elemento explícito, tem sua forma de reconhecimento no empírico, no âmbito do sentir e não no do perceber. Hoje entraremos levemente mais fundo nesse exercício de qualificação da identidade. Vamos pensar um pouco sobre contexto.
Quem já não ouviu a frase: “depende do contexto”?
Segundo a Wikipedia, contexto “é o conjunto de circunstâncias em que se produz a mensagem - lugar e tempo, cultura do emissor e do receptor, etc”. Ou seja, a forma que a mensagem, no uso das ferramentas de comunicação disponíveis, acontece. E por quê o termo “acontece”? Porque uma mensagem, como todos os elementos físicos de nosso mundo, não deixam de existir no momento seguinte à sua aparição. Ela, ou seus efeitos, se perpetuam. “Você é senhor do seu silêncio e escravo das suas palavras”, já diz um antigo pensamento árabe.
Existe um grande hiato separando o pensamento da expressão do pensamento. Talvez porque o pensamento não seja apenas palavras nem arranjos lógicos da mente. Nem seja apenas o efeito programador das memórias reagindo a estímulos. O pensamento talvez seja tudo isso somado à emoção. E a emoção tem o poder de dar a palavras e gestos sentidos completamente opostos dependendo da situação. Expressões monossilábicas podem assumir dezenas de significados. O próprio silêncio pode ter mais de um sentido.
Voltando ao tripé da identidade, podemos verificar que o contexto interfere diretamente na ética e na estética (e esta pode, por sua vez, restringir ou expandir o conteúdo). Os meios de comunicação atuais dão conta disso a todo momento.
Talvez possamos dizer que o contexto é o senhor da ética, visto que comunicações exatamente do mesmo teor, utilizando as mesmas palavras, transmitida(s) pelo(s) mesmo(s) meio(s) para o(s) mesmo(s) destinatário(s) podem assumir conotações apropriadas ou desapropriadas dependendo do momento em que acontecerem.
Não precisamos ir muito longe para encontrar um exemplo disso. Tomemos por exemplo as propagandas de cigarros. Há bem pouco tempo, o objetivo era associar pessoas alegres, e presumivelmente desfrutando de algum sucesso, saboreando tragadas de fumaça e sorrindo. Hoje em dia, apesar de o objetivo continuar o mesmo, o que menos se veicula são pessoas, sequer, segurando um cigarro, quanto mais levando-o à boca.
É o mesmo emissor da comunicação (companhia de cigarros), é mesmo receptor da mensagem (o público fumante ou potencial), é a mesma mídia (anúncios em revistas, por exemplo), com o mesmo objetivo (atrair a atenção para o produto). Mas o contexto atual não permite mais a conotação: “fume porque é bom”. A sugestão do anúncio continua sendo relacionar determinada marca com situações de sucesso; o conteúdo continua o mesmo. Belas paisagens, carros, móveis e objetos, vez por outra apresentados por modelos muito bem caracterizados continuam a ser utilizados; a estética é a mesma. A ética, o senso comum é que vem mudando com o tempo. Essa é a diferença. O contexto atual não tolera mais o ato de fumar como elemento institucionalizado na posição de “glamour”.
Tudo possui uma identidade. Até um cascalho da rua tem sua identidade registrada nas camadas que a compõe. Não seria diferente com as comunicações que originamos. Temos nosso modo de falar, nossos costumes e manias, a forma que julgamos mais confortável para expressar nossas idéias. Temos montado em nosso universo o conjunto de símbolos que nos acostumamos a utilizar. Quais conjuntos utilizamos em quê situações, são definidos pelo contexto.
Entre pessoas conhecidas usamos um conjunto de símbolos. Entre desconhecidos, usamos outros. Pessoalmente utilizamos um conjunto, por telefone talvez utilizemos algo diferente. Nas comunicações eletrônicas instantâneas temos símbolos completamente distintos da comunicação formal. Uma conversa com um adulto é completamente diferente do diálogo com uma criança de quatro anos. Esta, inclusive, tem muito a ensinar aos mais velhos quanto ao quesito sinceridade no uso dos símbolos.
Aliás, os símbolos não são apenas letras ou sons. Nossos gestos, nosso olhar, até nosso silêncio são símbolos que podem ser compreendidos pelo receptor da mensagem. É um exercício constante de aprendizado.
O conteúdo e a estética estão intimamente ligados e a ética observa sugere e orienta como os primeiros devem acontecer. O elemento norteador da ética é o contexto. E o contexto, no qual podemos estar inseridos ou não, é composto pelo resultado da soma de universos individuais. Logo, uma identidade não tem razão de ser sem outras identidades.
Uma comunicação, na qual seja nossa intenção que carregue nossa identidade ou que assuma uma identidade própria, não deve basear-se apenas em nossas características ou em nosso símbolos. Deve, antes disso, levar em conta os demais universos individuais e o resultado de sua soma: o contexto.
Referências:
- Sítio eletrônico da Wikipédia. URL: http://pt.wikipedia.org/wiki/Contexto
Acessado em 04/11/08
- Sítio eletrônico O Pensador do Sistema JC.
URL: http://www.pensador.info/autor/Pensamento_Arabe/
Acessado em 04/11/2008
Cláudio Martins
Novembro/2008
Contato com Cláudio Martins
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