#23 - Outubro 2008 Voltar ao Índice
Opinião
Ricardo Rose é formado em jornalismo, possui cursos de gestão ambiental pela Carl Duisberg Gesellschaft e SENAC, especialização em energia, marketing e finanças. Formado em filosofia. Desde 1997 é Diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Câmara Brasil-Alemanha.

- ARTIGO -
CAPITALISMO E QUESTÕES SOCIOAMBIENTAIS



A atividade econômica aumentou exponencialmente durante os últimos 50 anos. Entre 1950 e 2005, o valor do Produto Mundial Bruto (PMB) subiu cerca de nove vezes, aumentando dos US$ 7 trilhões para US$ 60 trilhões. Só em 2007, o PMB cresceu 3% em relação a 2006 e o comércio mundial de bens movimentou US$ 12 trilhões enquanto o comércio de serviços US$ 2,7 trilhões. A economia mundial vem se desenvolvendo tão rapidamente, que já estão sendo identificados gargalos na infra-estrutura, principalmente no setor de transportes de alguns países da Europa e dos Estados Unidos.

O crescimento da economia mundial, puxado principalmente pela expansão dos mercados asiáticos, está provocando o aumento do preços das commodities, inclusive das agrícolas. Diversos especialistas já estão apontando o fato como perigoso, podendo causar o aumento dos preços dos alimentos e assim prejudicando as populações dos países mais pobres. O assunto levanta preocupação, já que dos 6,2 bilhões de seres humanos que habitam o planeta, cerca de 1,1 bilhão ainda vivem em completa miséria, (sobre)vivendo com menos de um dólar ao dia. Outro aspecto, é que cerca de 2,4 bilhões dos habitantes da Terra são constituídos de crianças e adolescentes, habitando principalmente as nações pobres e as emergentes.

Apesar do constante crescimento da economia global, as economias dos países pobres não vem acompanhando este ritmo. Na África subsaariana, por exemplo, são constantes os conflitos militares provocados pela fome, falta de água e desorganização social. Países emergentes, por outro lado, estão destruindo florestas para abrirem caminho à agricultura, à criação de gado e à mineração, setores fortemente voltados para a exportação. Enquanto isso, milhões de pessoas destes países permaneceram na pobreza, sem terem sido integrados à economia formal.

A economia não é mais grande geradora de empregos. Atualmente, para fazer face à concorrência e sobreviver no mercado, as empresas precisam investir em inovação e reduzir os custos de produção, incluindo mão-de-obra. Por outro lado, com a globalização da manufatura, não há mais necessidade de se estabelecer a unidade produtora perto dos centros consumidores – produz-se onde os custos são mais baratos. Desta forma, diversas empresas acabam fixando-se onde os custos, os impostos e os requerimentos ambientais são mais baixos. Exemplo disso pôde ser observado no Brasil, onde diversas empresas deixaram a região do ABCD (municípios de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema, todos na região metropolitana de São Paulo) para se fixarem em outras regiões do país.

Em seu atual estágio de desenvolvimento, o sistema de produção capitalista obteve a hegemonia em todo o mundo. É evidente, porém, que esta organização econômica não está conseguindo lidar com a questão ambiental e a questão da pobreza. Os próprios solavancos inerentes ao sistema continuam a repetir-se, como no caso da crise da economia norte-americana, cuja resolução ainda está longe de ser alcançada, segundo os especialistas. Os rumos que a economia mundial poderia tomar, caso a China também reduzisse seu ritmo de crescimento sem que a crise americana tivesse passado, mal poderiam ser imaginados.

Ricardo Rose
Outubro/2008
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