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- ARTIGO -
IRRESPONSABILIDADE CONSCIENTE
O trânsito estava ruim. Não fluía devido a obras da prefeitura. O calor, descabido para um dia de inverno, fazia os minutos se arrastarem parecendo horas. Finalmente quando o carro da frente conseguiu vencer o cruzamento, o sinal já estava fechado de novo. Enfim, o que não tem remédio, remediado está. Tinha de esperar e pronto.
Na calçada, um grande e bonito cartaz da prefeitura trazia uma daquelas frases de impacto que os comunicadores tão bem sabem fazer: “Seja educado, separe o lixo.” Então minha atenção retornou para algumas horas antes. Lembrei da cena em que um catador de papel, daqueles que passam o dia inteiro puxando um carrinho e que tiram literalmente de seu suor o sustento da família, separava aparas e outros materiais de sua colheita daquela manhã.
O carrinho estava cheio e ele separava habilmente montes de plástico, vidro, isopor e metais. Terminado meu compromisso, quando passei de novo por aquela rua, o catador e seu carrinho não estavam mais lá. No lugar, apenas um amontoado de vidros e algum isopor. Tudo deixado ali, na rua, sem a menor preocupação com a segurança das crianças que ainda brincam livremente na periferia, nem com as enchentes que o entulho pode causar depois de acabar nos córregos e rios levados pela água das chuvas.
Então fiquei imaginando como ficam as empresas que doam esse material aos catadores, já que elas, por um lado têm o interesse em se desfazer desse material de forma gratuita, mas, por outro lado, são co-responsáveis pela imagem de abandono que impera na vizinhança e pela enchente que certamente virá um dia. E nesse dia, não vai faltar quem maldiga a atitude dos catadores que liberam espaço em seus carrinhos para ocupá-los com elementos mais rentáveis, como alumínio, por exemplo.
Enquanto o estado cobra do cidadão da grande classe consumidora que separe o lixo e assuma posturas ecológicas, fico me perguntando que tipo de atenção esses trabalhadores, que se sustentam através das aparas do consumo, tem recebido desse mesmo estado. “Não jogue lixo nos rios” dizem campanhas na televisão e no rádio colocando sobre seus ombros toda a culpa pelas inundações, mas não se vê campanhas do estado para viabilizar sua atividade de forma organizada e pensando na comunidade em que eles estão inseridos.
Não se tem notícias de programas, em qualquer esfera de governo, que reúna os catadores e os cadastre e capacite para o trabalho de separação, inclusive indenizando os dias “perdidos” por não estarem buscando seu sustento, mas passando sua posição de "parte do problema" para "parte da solução". Nem se vê uma iniciativa de governo para a distribuição de embalagens com cores e texturas distintas para a separação do lixo domiciliar, como ocorre em alguns países da Europa. Só o que se vê é a transferência da responsabilidade de ação para o cidadão, para o empresário e para o terceiro setor, como se fosse um "super-síndico" que cobra regularmente as taxas de condomínio, mas que, na hora de cumprir seu papel de gestor, diz para os condôminos se unirem e se virarem com os serviços e obras de conservação.
Pode-se culpar um catador que administra o pouco espaço de seu carrinho para poder maximizar seus rendimentos pelo trabalho gratuito que executa? Talvez o que se devesse fazer era mesmo parabenizá-lo pela iniciativa e pelo tino empreendedor que demonstra, mesmo sem um apoio minimamente digno por parte de quem deveria cuidar dele.
E quanto à responsabilidade social que o catador também tem? Ele sabe de sua parcela de culpa e de responsabilidade, mas só devolve à sociedade a mesma visão simplista e descompromissada que a sociedade e o estado manifestam em relação a ele. A forma de justiça mais elementar que se tem notícia: "cuide bem mim e eu cuido bem de você, não se importe comigo e não me importo com você". Não existe programa de inclusão social mais justo que a justa remuneração pelo trabalho bem executado. E o catador sabe disso.
Como será que se sente um trabalhador desses assistindo ao noticiário e percebendo a quantidade extravagante de dinheiro gasto com a preparação de atletas para a olimpíada e que é, se não pago diretamente, subsidiado pelo governo via compensações fiscais? E, no final das contas, ver esses atletas voltando de mãos vazias? Alguns chorando por não terem vencido um adversário ou superado seus próprios limites?
Acredito que as únicas certezas que se instalam em sua mente é que chorar calado à noite por ver um filho passando fome não gera publicidade e, por isso, é menos importante. Que terminar o dia puxando centenas de quilos por ruas movimentadas, arriscando a própria vida, é um limite que simplesmente tem de ser superado porque não haverá ombros amigos para chorar, mas gente igual a ele dividindo seu espólio caso desista no meio do caminho. E o fato de não ter comido nada o dia inteiro não fará a menor diferença.
Mas a pior das certeza é que as coisas no nosso Brasil vão continuar desse jeito. Com cidadãos tomando providências imediatas para problemas que exigem infra-estrutura e investimentos de longo prazo. Com empresários tomando as rédeas de situações que exigiriam a mão reguladora de um estado participativo de verdade e não apenas conceitual, o empenho de um estado assumidamente nacionalista como nos países desenvolvidos. E que vamos continuar com nossos governantes fabricando e interpretando livremente os números e fazendo de conta que os problemas não existem. Construindo obras monumentais, belos parques e belas praças para que todos se divirtam, já que a dignidade de vida é para poucos.
Infraestrutura custa muito mais que paisagismo. Mas água das chuvas e esgotos correndo livres e ordenadamente, ocultos no subterrâneo, não são vistos e, por isso, não são lembrados. Usinas de geração de energia, redes de distribuição e planos diretores de desenvolvimento são elementos mudos, cumprem sua missão calados. Já parques e praças...
O motorista atrás do mim buzinou; o sinal abriu e eu não vi. Peço desculpas e ele aceita. Ainda conseguimos ser cordiais no trânsito, embora isso também pareça estar com os dias contados. O tempo está passando e minha consciência me cobra uma tomada de decisão: ou me posiciono de alguma forma e me torno realmente responsável pelo lugar que ocupo, ou fecho os olhos como fazem os governos e finjo que está tudo bem.
O trânsito parou de novo. Dá para ouvir a música que está tocando no rádio do carro ao lado. Bem que podia estar tocando os Bee Gees...
Meu agradecimento a Cris Baluta (diretora da Roadimex International e conselheira para assuntos de meio-ambiente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil Alemanha - Filial Curitiba) por elucidar dúvidas que tive durante a redação deste artigo.
Cláudio Martins
Setembro/2008
Contato com Cláudio Martins
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