#16 - Agosto 2008 Voltar ao Índice
Opinião
Artigo produzido para o Espaço Releituras. Trata da unificação da forma escrita da língua portuguesa e do espaço cada dia mais abrangente que a cyber escrita ocupa no cotidiano.

- ARTIGO -
INCULTA, BELA E À ESPERA DA REVOLUÇÃO


Fartamene noticiado pelos mais diversos meios de comunicação, finalmente chegou-se a um acordo com relação à unificação da língua portuguesa escrita. Segundo o que dizem alguns especialistas, essa medida é necessária para que nosso idioma seja aceito pela comunidade internacional e para facilitar a integração entre as nações em que ele é a língua oficial. Tirando a plena concordância quanto ao aprimoramento da integração entre as nações que falam o mesmo idioma, algumas perguntas ficam martelando em meus ouvidos o tempo todo, tentando entender como a unificação da escrita pode ter esse poder diplomático.

Lembro como se fosse ontem das primeiras aulas de inglês que tive, ainda na meninice da idade contada em um único dígito. Tudo bem que eram tempos módicos, em que a preocupação de todos não passava nem perto do que passa hoje. Além das conjugações e “decorebas”(1), tinha-se de “aceitar” que invariavelmente havia duas formas de se dizer as coisas em inglês: a britânica e a americana. E essa sensação de dualidade se ampliou ainda mais pela necessidade de estudar em mais de uma escola de idiomas, cada uma com seu método e com suas “manias”.

Fico imaginando em quê um “ato” difere de um “acto”. Talvez o mesmo que, em inglês, um “center” difira de um “centre”. - É que entre eles existe um oceano de distância - diria um observador mais simplista. O primeiro termo está a oeste e o segundo está a leste do Atlântico. Por que, então, essa diferença de identidade entre falantes do mesmo idioma é aceita entre americanos e britânicos e não pode ser aceita entre brasileiros, portugueses e os falantes do português de outros países?

Fico também me perguntando se um cidadão de Portugal ou de Cabo Verde ou de Angola sabe o que significam as palavras “piá” e “guri”, derivadas do Guarani, idioma dos índios que habitavam (e ainda habitam) o Brasil, que significam menino nos estados mais ao sul do país. Ou mesmo se os brasileiros sabem o que são as “bifanas”, os bifes de carne suína tão apreciados em Portugal.

Mesmo com palavras unificadas, meus amigos portugueses continuarão a terminar seus e-mails mandando “um abraço para si” deixando boquiabertos nossos estudantes, desde o primeiro ano da escola básica ao graduado na universidade. E, no final das contas, depois de alguém lhes explicar que é assim que se diz “um abraço para você” no português de fora do Brasil, eles irão apenas aceitar a diferença e responder a mensagem com um alegre “para você também!” E com o tempo, assimilarão que no outro lado do oceano alguém vai sorrir ao ler "o mesmo para si" na resposta escrita por um brasileiro a uma mensagem eletrônica. Talvez esse seja o verdadeiro espírito da integração lusófona.

A unificação da forma escrita veio para ficar e é lógico que a utilizaremos e a faremos valer, compreendendo a eficácia do tratado ou não. Só não entendo a razão de em outros idiomas (leia-se inglês) as diferenças serem simplesmente aceitas e assimiladas e nós, falantes desse idioma tão belo, sonoro, com as cores do redor do mundo, termos de abandonar nossas diferentes formas de escrita que, de fato (ou de facto), não atrapalhavam a compreensão uns dos outros.

Parafraseando o Professor Pasquale Cipro Neto, autêntico representante da língua portuguesa (não só do Brasil), chamaria nosso idioma de ocasionalmente inculto, mas certamente belo. E o classificaria ainda como colorido, leve, romântico. E o que lhe confere tal leveza é justamente a vasta diversidade que sua articulação permite. A beleza de se presenciar a conversa descontraída entre um gaúcho, um carioca, um mineiro e um soteropolitano(2). A alegria estampada no rosto do brasileiro e do português ao escutarem as mesmas palavras ditas de forma tão diversa e, ao mesmo tempo, tão comum.

Agora, só nos resta aguardar pela próxima unificação, ou melhor, pela próxima revolução. Aquela que come vogais, despreza completamente os acentos e cria uma nova forma de comunicação, mnemonizada(3). Aquela que leva executivos importantes a escrever e-mails ridículos, desestruturados e que desvalorizam sua própria capacidade em função de uma deselegância sistematizada. Na língua portuguesa, como na maioria dos idiomas, já existe a variante “Y”, aquela utilizada nos comunicadores instantâneos, em e-mails e nas “short messages” dos telefones celulares(4). É um certo “Cyber Português” ou, como se fosse possível, uma “Língua Portuguesa Yankee”.

Com a unificação, ainda podemos brincar com a flexibilidade da língua portuguesa vestindo-a com uma forma propositalmente inculta e, mesmo assim, não deixará de ser bela. Porém, após a revolução, nossa forma escrita poderá até se denominar plugada, globalizada, simplificada. Mas talvez se torne deselegante, sem cor, maltrapilha, sem sabor, triste. Cabe aos "Yankees" não permitir que isso aconteça.


(1) Decoreba: termo coloquial brasileiro que designa o conhecimento aprendido (apreendido) pela repetição. Saber de cor.
(2) Gaúcho: indivíduo nascido na região dos Pampas da América do Sul, no Brasil representada pelo estado do Rio Grande do Sul, no extremo sul do país. Carioca: indivíduo nascido na cidade do Rio de Janeiro, mundialmente conhecida e principal centro turístico do Brasil. A cidade foi a capital nacional de 1763 até 1960 quando a sede (morada) do governo federal se mudou para a cidade de Brasília, no centro geográfico do país. Mineiro: indivíduo nascido no estado de Minas Gerais, na região sudeste do Brasil, assim como o Carioca. O Mineiro é considerado calmo, astuto e conhecido no país por cortar e emendar palavras e usar bastante as formas diminutivas. Soteropolitano: indivíduo nascido em Salvador, no estado da Bahia, na região nordeste do Brasil, capital da então colônia portuguesa de 1549 até 1763.
(3) Mnemônico: de mnemônica, que é a arte ou ciência de memorizar. Amplamente utilizados na ciência da computação, principalmente em seus tempos iniciais. Consiste em se utilizar símbolos que contenham em si mesmos elementos associativos entre esses códigos e seu significado. Ex. vc = você, tbm = também, mto = muito, bj = beijo etc.
(4) Telefone celular ou apenas Celular: São os ditos telemóveis em Portugal.



Cláudio Martins
Agosto/2008
Contato com Cláudio Martins