#14 - Julho 2008 Voltar ao Índice
Opinião & Cultura
Alexandre Gamela é jornalista freelancer, blogger, podcaster, e adepto das novas tecnologias de comunicação. Tem experiência em rádio, televisão, imprensa e aptidões multimídia. Também trabalha como escritor freelancer. Reside em Portugal.

- ARTIGO -
DINOSSAUROS, LEMBRAM DO QUE LHES ACONTECEU?

(Postado no Blog "O LAGO" em 4 de julho)


Durante o workshop que fiz no Summer Institute 08, tivemos a oportunidade de comentar as dificuldades impostas nas redacções pelos “dinossauros”, os jornalistas, editores, administradores que se sentem ameaçados pela (r)evolução na indústria de informação. Numa conversa particular com um dos meus colegas, ele disse que pelo que sente na pele, os jornalistas que estão a apostar nos novos media tornaram-se alvos a abater. E eu só pensei como isso era tremendamente estúpido, faz tanto sentido como abrir um buraco no meio de um bote salva-vidas.

O que os leva a fazer isto? O medo. O medo de perder poder. O medo de não conseguirem dominar um meio que lhes pertenceu e idealizaram durante tanto anos. O medo de se tornarem obsoletos. Eu não concordo com a arrogância de alguns que acham que a internet vai salvar o mundo. Aliás, como dizia muitas vezes o professor Rosental “não é uma coisa ou outra, é uma coisa e outra”. Por isso não faz sentido a quantidade de entraves que se vão colocando entre profissionais, dentro de empresas. A mudança já ocorreu, e se eles não a aceitam, o trabalho que eles tanto adoram morre com eles.

Os mais pesados e os mais intransigentes ficarão sujeitos à devastação provocada pelo meteoro 2.0. e só os mais ágeis e adaptáveis sobreviverão. Não pensem que são apenas os “velhos” que teimam numa imagem romântica do jornalismo e não percebem o que se está a passar, os maiores conservadores que apanhei na vida eram jovens jornalistas e estudantes. Estamos na maior revolução de paradigma industrial desde a máquina a vapor, e mesmo assim não o aceitam nem o compreendem. E como jornalistas que são ou querem ser, pelo menos deviam tentar.

O que me leva à seguinte questão: porque é que eu, vocês que me lêem, os que trabalham, os que que querem trabalhar em jornalismo, querem ser jornalistas? Será o meio em que o fazemos mais importante do que a função? Eu não me considero um jornalista, mas mais um partilhador de informação que é importante para um grupo de pessoas, e se me pagarem para fazer isso sobre um determinado assunto tanto melhor. Por isso acho a história da carteira profissional uma treta, mas isso fica para outro dia.

O futuro das empresas de comunicação passa pela compreensão da sua função social e económica, como promotoras e geradoras de conhecimento e rendimentos, próprios e alheios. O futuro do jornalismo passa pela desmistificação da profissão, e acima de tudo, por uma dose gigantesca de humildade. Só assim, com a deflação de alguns egos, pode ser que consigam entrar numa caverna e salvar-se, antes que a sua presença na história seja apenas o seu nome fossilizado em papel.

O Ryan Sholin diz que o status quo está a matar os jornais. E também diz que entrou para o ramo porque quer “consertar” o jornalismo, em vez de querer salvar o mundo, melhorar as coisas, afligir os estabelecidos . Eu não chego a tanto, porque a minha influência é quase nula, mas faço o que posso para que as pessoas estejam mais e mais informadas sobre o que se vai passando, à medida que eu próprio vou descobrindo o caminho.

Mas neste post o Ryan sugere que cortemos relações com os dinossauros, que reclamam muito e não fazem nada para resolver os problemas - este é o nosso passatempo nacional- , ou seja, deixá-los para trás para morrer. Eu concordo. Em comentário, o Mark Hamilton diz: “Liderem, sigam, ou saiam da frente.” Eu subscrevo. E quem está contra mim está a perder o seu tempo. Não querem jornalistas multimédia no vosso jornal? Não há problema, nós abrimos o nosso próprio site informativo. Não nos respeitam como profissionais e acham que isto é uma curiosidade? Tudo bem, foi o que disseram do automóvel. O mais aflitivo é ver que muitas destas atitudes são tomadas por pessoas altamente cultas e inteligentes, mas que não conseguem ver para além do próprio umbigo, isolados em torres de marfim.

Façam o que alguns dinossauros fizeram, escapem ao cataclismo, ganhem asas e penas, e voem. Mas uma coisa é certa, a vida continua, com ou sem vocês. A escolha é vossa, entre ficar no camarote a reclamar, ou estar no palco a ajudar quem pode beneficiar da vossa experiência.

Alexandre Gamela
Julho/2008
Blog: (http://olago.wordpress.com/)
PodCast: (http://codigodesconhecido.podomatic.com/)