#13 - Julho 2008 Voltar ao Índice
Cultura
Ricardo Rose é formado em jornalismo, possui cursos de gestão ambiental pela Carl Duisberg Gesellschaft e SENAC, especialização em energia, marketing e finanças. Formado em filosofia. Desde 1997 é Diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Câmara Brasil-Alemanha.

- ARTIGO -
PSICOLOGIA EVOLUTIVA, UMA NOVA VISÃO DA MENTE


“Se acreditamos com tanta ingenuidade nas idéias é porque esquecemos que foram concebidas por mamíferos.”
CIORAN, E. M., Silogismos da Amargura, Editora Rocco: Rio de Janeiro, 1991

Uma das grandes dificuldades na psicologia, apontada por diversos autores, é a construção de uma história desta ciência. A maneira mais simples – mas não a mais didática – consiste em descrevê-la em uma seqüência cronologicamente ordenada, apresentando a análise dos problemas e as tentativas de soluções. A forma mais coerente de apresentar esta ciência está focada na análise dos problemas isolados, mostrando as soluções que lhe foram propostas.

Usualmente, divide-se a história da psicologia em dois períodos: o filosófico-especulativo e o científico. A primeira fase tem suas origens no pensamento grego, e se estende até o final do século XIX e início do século XX. Neste primeiro período incluem-se todas as contribuições – notadamente no campo da filosofia – desde Platão e Aristóteles, passando por Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Descartes, Locke, Hume e outros. Ainda na segunda metade do século XIX surgem os primeiros avanços no estudo do sistema nervoso e ocorre a introdução de práticas experimentais, com o alemão Wilhelm Wundt (1832-1920). É por esta época que se produzem os primeiros trabalhos significativos de pesquisa experimental sobre o processo de aprendizagem com Ebbinghaus, no domínio da memória, e Thorndike, em torno da formação dos hábitos e pesquisas com a utilização de animais. A este último deve-se a transposição das idéias de Darwin para o campo da aprendizagem.

A corrente psicológica inaugurada por Thorndike foi bastante influenciada pelo filósofo e psicólogo americano William James (1842-1910), também o mais importante representante da corrente filosófica do pragmatismo. Esta filosofia é tal que, segundo o próprio James, “teorias não são mais respostas para charadas, respostas com as quais podemos nos satisfazer; teorias transformam-se, sobretudo, em ferramentas” (James, 1994, pág. 23 e 24). James é considerado por muitos o pai da psicologia americana. Em sua obra Principles of Psychology (Princípios de Psicologia), afirma que a mente não poderia aprender a menos que tivesse rudimentos de conhecimento inato. O psicólogo acreditava que os seres humanos dispunham de tendências inatas, que não eram provenientes da experiência, mas originavam-se do processo darwiniano de seleção natural, isto é, eram aptidões herdadas.

As idéias de William James, que contribuíram para a criação da psicologia funcionalista e influenciaram outros autores, foram aos poucos sendo esquecidas pelo mundo acadêmico. O funcionalismo foi eclipsado por outras escolas de psicologia, como a escola behaviorista ou comportamentalista. Todavia, o princípio do funcionalismo ressurgiu parcialmente em 1958, quando o lingüista americano Noam Chomsky retomou a idéia dos “rudimentos de conceitos inatos”, defendido por James anteriormente. Em sua nova interpretação Chomsky chamou este conceito de “gramática profunda”, que basicamente dizia que era impossível que uma criança aprendesse as regras inatas na linguagem, como defendido pelo behaviorismo. Chomsky apresentou exemplos onde criticava a posição comportamentalista e tentava provar que a mente da criança deveria ter as regras inatas, através das quais o vocabulário da linguagem é fixado.

O desenvolvimento da biologia, genética, neurologia, lingüística, antropologia e da psicologia permitiu que nos últimos trinta anos fossem reunidos um número cada vez maior de informações, que propiciaram o ressurgimento do funcionalismo, com análises e interpretações mais aprofundadas. O primeiro indício deste reaparecimento do funcionalismo foi a publicação do livro Sociobiology: The New Synthesis, do biólogo Edward O. Wilson. A obra causou grande impacto no mundo acadêmico logo assim que surgiu, recebeu interpretações tendenciosas de vários autores e universidades americanas e acabou gerando forte oposição, sendo acusada de defender o darwinismo social. O psicólogo americano Stephen Pinker, referindo-se a Wilson em seu livro Tábula Rasa, defende-o das acusações e resume sua proposta da seguinte maneira: “(Wilson) analisa princípios sobre evolução da comunicação, altruísmo, agressão, sexo e criação de prole e os aplica aos principais grupos taxonômicos dos animais sociais como insetos, peixes e aves. O capítulo 27 faz o mesmo para o Homo Sapiens, tratando nossa espécie como mais um ramo do reino animal. Inclui um exame da literatura sobre os universais e variação de sociedades, uma discussão sobre linguagem e os seus efeitos sobre a cultura e a hipótese de que alguns universais (incluindo o senso moral) podem provir de uma natureza humana moldada pela seleção natural. Wilson manifestou a esperança de que sua idéia pudesse ligar a biologia às ciências sociais e à filosofia...” (Steven Pinker, 2004, pág.157).

A partir da década de 1990, dois acadêmicos de Harvard, John Tooby e Leda Cosmides retomaram muitos pontos defendidos pela sociobiologia e criaram a psicologia evolutiva. O zoólogo inglês Matt Ridley define esta corrente da psicologia da seguinte maneira: “Foi uma tentativa de fundir o melhor do nativismo (funcionalismo) de Chomsky – a idéia de que a mente não pode aprender a não ser que tenha rudimentos de conhecimento inato – com o melhor do selecionismo da sociobiologia: a forma de compreender uma parte da mente é entender o que a seleção natural planejou que ela fizesse.“ (Ridley, 2003, pág. 308).

Para se compreender o desenvolvimento da psicologia, desde os tempos do funcionalismo de William James até a psicologia evolutiva, é necessário entender a evolução do darwinismo ao longo dos últimos 150 anos, já que este influenciou bastante àquela psicologia. Segundo um dos maiores biólogos do século XX, Ernst Mayr, o darwinismo teve seis fases, cada uma agregando mais dados e aprofundando as bases da teoria da evolução, cobrindo o período de 1859 até por volta do ano 2000. Eliminando falsas interpretações como o lamarckismo (a evolução se dá por transmissão de características adquiridas); o saltacionismo (a evolução acontece “aos saltos”, por mudanças abruptas) e a ortogênese (a evolução teria uma meta, seria teleológica); e incorporando a genética e a biologia molecular, a teoria da evolução é hoje tão bem comprovada quantas outras teorias no ramo da física.

Segundo escrevem Leda Cosmides e John Tooby em seu estudo Evolutionary Psychology: A Primer (Psicologia evolutiva: um guia) “o objetivo de estudo da psicologia evolutiva é descobrir e entender o projeto da mente humana. A psicologia evolutiva é uma abordagem da psicologia, na qual conhecimentos e princípios da biologia evolucionista são colocados em uso na pesquisa da estrutura da mente humana.” (Cosmides, Tooby, 2007, pág. 1). Baseada na teoria da evolução, a psicologia evolutiva enxerga a mente como um conjunto de “máquinas de processamento de informações”, projetadas pela seleção natural, para resolverem problemas de adaptação, enfrentados por nossos ancestrais caçadores-coletores. Retomando a afirmação já feita por William James, no final do século XIX, os autores dizem que tendemos a considerar o ser humano como uma espécie que transcendeu ou sublimou (para usar uma expressão freudiana) seus instintos, substituindo-os em grande parte pela racionalidade. Todavia, se observarmos todas as coisas que automaticamente fazemos com nosso cérebro, como olhar, falar, gostar de alguém, devolver um favor, ter medo de doenças, apaixonarem-se, iniciar um ataque, deslocar-se na paisagem, e uma gama de outras coisas, percebemos que estas ações só são possíveis, porque há um vasto e heterogêneo sistema computacional, ajudando e regulando estas atividades. Este sistema trabalha tão bem que nem percebemos que existe.

Entre filósofos e cientistas, antes e depois de Darwin, sempre foi senso comum que a mente humana era uma folha em branco, uma “tabula rasa”, virtualmente sem nenhum conteúdo. Tomás de Aquino já escrevia que “não há nada no intelecto que não estivesse antes nos sentidos”, e nisso foi seguido por John Locke, o pai do empirismo inglês, que entre outros influenciou Rousseau (“o homem é bom por natureza, a sociedade é que o corrompe”) e todo o pensamento marxista, além do behaviorismo. De acordo com esta corrente de pensamento, todo conteúdo da mente humana tem origem externa, do ambiente, sendo que a arquitetura mental consiste em mecanismos independentes, classificados sob nomes como “aprendizado”, “indução”, “inteligência”, “imitação”, “racionalidade” ou “cultura”. Tais mecanismos mentais não possuem estruturas de processamento, o que implica que todo que pensamos e sentimos vem-nos do exterior e do mundo social.

A psicologia evolutiva, por outro lado, afirma que toda a mente humana tem uma rede de circuitos especializados, propiciando estruturas universais de sentido, que nos permitem entender as ações e as intenções dos outros. Steven Mithen em seu livro A pré-história da mente, descreve a psicologia evolutiva da seguinte maneira: “Cosmides e Tooby tratam a mente como tratamos qualquer órgão do corpo – é um mecanismo evoluído, construído e ajustado em resposta às pressões seletivas enfrentadas por nossa espécie durante a evolução.” “... como conseqüência disso, Cosmides e Tooby argumentam que a mente é um canivete suíço com um grande número de lâminas altamente especializadas”. (Steven Mithen, 2002, pág. 68).

A psicologia evolutiva, segundo Cosmides e Tooby, tem como tema de seus estudos: 1) Cérebros; 2) Como cérebros processam informações; 3) Como os programas de processamento de informações do cérebro geram comportamento. Se assumirmos que a psicologia é um ramo da biologia, então várias ferramentas podem ser aplicadas à psicologia. Os cinco princípios básicos, utilizados como métodos pela psicologia evolutiva, são:

1º Princípio: O cérebro é um sistema físico, que atua como um computador. Seus circuitos são projetados para gerar comportamento que seja apropriado às nossas circunstâncias ambientais.

O cérebro é um sistema físico, cuja operação é governada unicamente pelas leis da química e da física. Sua função é processar informações, ou seja, é um computador feito de componentes à base de carbono (assim como todo tecido vivo). Nesta estrutura, neurônios são conectados uns aos outros, de uma maneira altamente organizada e são também ligados aos circuitos neurais, que percorrem o corpo humano. Receptores sensórios são conectados a neurônios, que transmitem informação ao cérebro. Em suma, os circuitos do cérebro são projetados para gerar movimento, respondendo as informações do ambiente. A função do cérebro, este computador “molhado”, é gerar comportamento que seja apropriado às circunstâncias encontradas pelo restante do corpo no ambiente.

2º Princípio: Nossos circuitos neurais foram projetados pela seleção natural, para resolver problemas que nossos ancestrais enfrentaram durante a história evolutiva de nossa espécie. Nossos circuitos neurais formaram-se para resolver problemas adaptativos, ou seja, como o organismo sobrevive: o que come, de quem é presa, com quem se acasala, com quem se associa, como se comunica, e assim por diante.

3º Princípio: A consciência é apenas a ponta do iceberg; a maior parte do que ocorre no cérebro permanece desconhecido. Como resultado, nossa experiência consciente pode nos iludir e fazer-nos pensar que a estrutura da mente é mais simples do que parece. A maior parte dos problemas que experimentamos como fáceis de resolver são difíceis – requerem um circuito neural bastante complexo. A complexidade do funcionamento da mente humana é muito grande. Podemos apresentar grandes generalizações, mas que não explicam como a estrutura efetivamente funciona.

4º Princípio: Diferentes circuitos neurais são especializações para resolverem diferentes problemas de adaptabilidade. Segundo a psicologia evolutiva, temos todos estes circuitos neurais especializados, porque o mesmo mecanismo raramente é capaz de atender diferentes necessidades de adaptação, como: escutar, enxergar, sentir raiva, medo, náusea, etc. Conseqüentemente, o cérebro deve ser composto de grandes grupos de circuitos, com diferentes sub-circuitos, especializados para resolver diferentes desafios.

5º Princípio: Nosso moderno crânio abriga uma mente da Idade da Pedra. A seleção natural levou muito tempo para produzir suas mudanças e construir novos circuitos em nossos cérebros. Por quase 99% do tempo de existência de nossa espécie vivemos como caçadores-coletores. Isto quer dizer que nossos ancestrais viviam em pequenos grupos nômades, com poucas dúzias de indivíduos, que obtinham seu alimento todo dia, caçando animais e colhendo plantas. Desta forma, a chave para entender o funcionamento da mente moderna é compreender que seus circuitos não foram projetados para problemas diários de um americano moderno – foram desenvolvidos para problemas diários de nossos ancestrais caçadores-coletores. Isto, todavia, não quer dizer que nossa mente não tenha mecanismos de aprendizado, capazes de permitir que criemos novos ambientes e nos adaptemos a eles.

Estes são os principais aspectos da psicologia evolutiva, novo ramo da psicologia – ou da biologia – que está atraindo a atenção de cientistas estudiosos do darwinismo e da psicologia. As implicações filosóficas desta teoria ainda não foram completamente avaliadas, mas certamente deverão influenciar o futuro desenvolvimento de diversas ciências que tratam do estudo do comportamento humano.

BIBLIOGRAFIA

Bastos, Cleverson Leite, Mente, Cogniçao e a Teoria da Mente Ornamental, Revista de Filosofia, Curitiba, v.18 n. 21, p.111-123, julho/dez 2005

Cosmides, Leda, Tooby, John, Evolutionary Psychology: A Primer (Psicologia Evolutiva: Uma manual – sem tradução), Center for Evolutionary Psychology, disponível em http://www.psych.ucsb.edu/research/cep/primer.html acesso em 06/09/2007

Hogan, John, A mente desconhecida, Editora Schwarcz, São Paulo: 2002

James, William, Was ist Pragmatismus? (O que é pragmatismo?), Beltz Athenäum Verlag, Weinheim, 1994

Mayr, Ernst, Biologia, Ciência Única, Editora Companhia da Letras: São Paulo, 2005

Mithen, Steven, A pré-história da mente, Fundação Editora da Unesp: São Paulo, 2002

Pinker, Steven, Tábula Rasa, Editora Companhia da Letras: São Paulo, 2004

Ridley, Matt, O que nos faz humanos, Editora Record: São Paulo, 2003

Ruse, Michael, Levando Darwin a sério, Editora Itatiaia Limitada: Belo Horizonte, 1995

Ricardo Rose
Julho/2008
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