#11 - Julho 2008 Voltar ao Índice
Opinião
Ricardo Rose é formado em jornalismo, possui cursos de gestão ambiental pela Carl Duisberg Gesellschaft e SENAC, especialização em energia, marketing e finanças. Formado em filosofia. Desde 1997 é Diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Câmara Brasil-Alemanha.

- ARTIGO -
AMAZÔNIA: PECUÁRIA AVANÇA SOBRE A FLORESTA



A Amazônia continua sendo alvo das atenções de todos aqueles que se preocupam com a preservação deste grande ecossistema. A notícia mais recente sobre a região é que a pecuária é o grande motor do processo de desflorestamento. Segundo o jornal Folha de São Paulo, grande parte das atividades pecuárias na região vem sendo financiada pelo Banco da Amazônia, cobrando os juros mais baratos do país – entre 0,5% e 10,5% ao ano. Um estudo preparado recentemente pelo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) revela que entre 2003 e 2007 os pecuaristas da região Norte receberam, entre outros recursos, 1,89 bilhões do FNO (Fundo Constitucional de Financiamento do Norte). Somente no Estado do Pará, os empresários obtiveram R$80 milhões em empréstimos do PRONAF ( Programa Nacional de Agricultura Familiar) em 2007. Parte dos recursos destes fundos é gerada pelo Imposto de Renda pago no país. Com isso, os bancos acabam financiando uma atividade – a pecuária – que está sendo responsabilizada por grande parte dos desflorestamentos na região. Todavia, segundo funcionários do Banco da Amazônia, a grande dificuldade é saber o uso que seus clientes estão dando aos recursos já que, segundo eles, não há condições de fiscalizar as fazendas.

A região amazônica concentra cada vez mais o crescimento do rebanho brasileiro, fazendo com que a região seja responsável por um terço das exportações brasileiras de carne nos últimos anos. O constante aumento do preço da commoditie no mercado internacional, puxado principalmente pelo aumento de seu consumo na China, está fazendo com que a pecuária se expanda cada vez mais na Amazônia, ás custas da floresta. O próprio Ministério da Agricultura prevê um crescimento de 31,5% na produção de carne bovina nos próximos dez anos. Com este aumento, o Brasil será responsável por 39% de todas as vendas de carne no mercado internacional.

Ainda segundo a mesma reportagem na Folha de São Paulo, o município paraense de São Felix do Xingú é um dos que apresentam as maiores taxas de desmatamento na região. Ao mesmo tempo o município abriga um rebanho de 1,7 milhões de cabeças de gado, superior aos rebanhos dos estados de Roraima e Amazonas somados. Na sede do município, por exemplo, o preço do filé mignon é menor do que o de carne de segunda no resto do país e o número de açougues é oito vezes maior do que o de padarias.

A atividade pecuária tem grande importância para o Brasil, tanto na criação de empregos quanto na geração de riquezas. Todavia, é preciso avaliar até que ponto este tipo de atividade tem efetiva sustentabilidade na Amazônia, da maneira como vem sendo praticada. Será que daqui a dez ou vinte anos os municípios poderão ainda manter esta atividade econômica, oferecendo (enfim) um padrão de desenvolvimento social aceitável à sua população, sem ter arrasado os recursos naturais? Ou será este mais um daqueles ciclos econômicos – como havia e ainda os há no Brasil – dos quais poucos tiram proveito, ao passo que a maior parte da população não participa?

Para evitar o aumento dos problemas econômicos, sociais e ambientais na Amazônia é preciso que o Estado se faça mais presente na região, tanto para proteger e regulamentar a livre iniciativa, quanto para melhorar o índice de desenvolvimento humano (IDH).

Ricardo Rose
Julho/2008
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