#1 - Fevereiro 2008 Voltar ao Índice
Opinião
Artigo premiado com o 2º Lugar no Concurso Literário Dr. Hernãni Cidade / 2007 da Biblioteca Municipal de Redondo, Vila do Alto Alentejo - Terra da arte de trabalhar o barro - Portugal.
Saiba mais sobre esse lugar aconchegante

- ARTIGO -
O blogue como espaço de escrita e reflexão


A internet, indubitavelmente, revolucionou conceitos em termos de comunicação. Não apenas a comunicação escrita, mas a forma como as distâncias são encaradas de uma maneira geral após o advento desse novo canal de mídia. Em nossos dias, não é raro nos pegarmos pensando em pessoas, distantes milhares de quilômetros, como se estivessem tão próximas quanto alguém na sala ao lado. Muito além dessa possibilidade de comunicação fácil, a rede mundial abre caminho para a livre expressão de idéias e sentimentos. O fato de sítios bem montados retirarem a necessidade de um rosto atrelado à manifestação de uma opinião faz com que sentimentos os mais profundos surjam de forma natural em uma grande quantidade de Blogues nesse mundo virtual que nos envolve.

Talvez esse espaço - que na verdade muda o próprio conceito de espaço - destinado à livre postagem de comentários, seja a materialização do mais puro sentimento democrático. Nele, o filósofo e o iletrado têm o mesmo tamanho, a mesma cor, a mesma riqueza. Ambos estão fora da dimensão do tempo. Catedráticos e operários têm o mesmo direito às considerações que ali existem. Embora ensejando reações diferentes em cada visitante, os pensamentos dos que encontram seu espaço e sua forma de expressão, estão ali, de forma aberta. Mesmo que esse expressar-se seja um mero concordar ou discordar, veladamente postado sob um pseudônimo discreto.

Porém, a expressão escrita, por si só, sem o devido amadurecimento ético e sem o respeito à vida em sociedade, pode representar o rompimento dessa linha tênue que divide o princípio democrático da anarquia sistematizada. Como idéias e conceitos podres desfilando por corredores atapetados. Demonstrações de força verbal protegendo a fraqueza moral. E essa é, sem sombra de dúvida, a mais antiga batalha travada no campo da comunicação, só superada pela batalha do domínio dos povos pela força bruta. E é nesse mundo sem fronteiras físicas e da distância infinita de um espaço que não existe, que reside a força pró-reflexão dos WebLogs, ou Blogues como se tornaram popularmente conhecidos esses pontos de encontro virtuais.

Nos Blogues, idéias são expostas, mas não precisam necessariamente ser aceitas. Conceitos são lançados, mas não têm de ser respeitados. Invariavelmente, é o bom senso o fator determinante e orientador que leva o visitante desse espaço de idéias a se posicionar sobre o tema proposto. O visitante do sítio das opiniões pode, a qualquer tempo, utilizar-se dessa mesma mídia, que é a rede mundial, para verificar e constatar ele mesmo a consistência da idéia que está sendo colocada publicamente. É ele, esse misto de escritor e leitor, de acusador e defensor, de réu e juiz, que toma em suas mãos a decisão de concordar ou não da opinião exposta, ao contrário das grandes manobras de massas que vimos no século XX, em que a emoção causada por bons oradores, aliada à razão desinformada dos ouvintes, orientava o rumo dos acontecimentos. Isso faz com que a sociedade dos dias de hoje seja mais exigente, mais crítica, mais rebelde à rédea.

Como vem acontecendo ao longo dos séculos de socialização do homem, é a grande massa de pessoas, antes ameaçada pela força dos exércitos, hoje manipulada pelos meios de comunicação, que mantém ou destrona líderes e lideranças. Em um raciocínio simples, a formação da opinião está sempre baseada na observação de fatos. Fatos que só se tornam acessíveis pela geração de informação. Informação que pode relatar uma ou várias das diversas faces da mesma realidade. E dessa necessidade básica que tem a realidade de ser interpretada e traduzida em informação para que se torne fato, nota-se a importância dessa mídia-mural, desse quadro de recados gigantesco, para que as diversas faces do que é real possam externar-se abertamente. É pena que esse espaço versátil, econômico e democrático, também possa ser utilizado como meio de manobra dessa grande massa que é a sociedade.

Bom seria se os acontecimentos pudessem bradar ao vento, eles mesmos, todas as suas nuances. E, a partir daí, se gerassem os fatos que, bem observados, subsidiariam as opiniões de cada um. Enquanto essa era não chega, o internauta, que não deixa de ser um cidadão do mundo, utiliza-se de seus meios para compartilhar idéias, sensações e emoções. Para perguntar, responder, xingar, elogiar, desabafar. Compor, decompor e recompor filosofias. Compreender, se distrair, brincar. Buscar em outras mentes visões que justifiquem, ou que o convençam a mudar, sua opinião.

Diz a teoria filosófica que cada indivíduo encerra em si um universo único de conceitos, de dúvidas, de alegrias, de tristezas. O tempo e a tecnologia têm permitido que essas características próprias do mundo de cada um se tornem, talvez não públicas, mas, devidamente filtradas pelo senso ético e moral, publicadas nesse canal de mídia excepcional que são os Blogues. O conhecimento e o reconhecimento dessas identidades, desses universos, faz com que cada internauta tenha, ao alcance de suas mãos, um sem-número de pareceres. Pareceres estes com opiniões, com emoções, com concordâncias e discordâncias. Com milhares de perguntas que questionam o mesmo assunto e dezenas de milhares de respostas diferentes, cada uma com o toque da personalidade de outro internauta. Dele e de seu universo.

Não importa o nome que se dê a esse advento. Não importa se o meio de veiculação se chama Blogue, WebLog ou ponto de encontro virtual. Trata-se de uma das mais fantásticas experiências antropológicas de que a humanidade já teve notícia: relacionamento, informação, crítica e autocrítica. Todos acontecendo ao mesmo tempo. Todos tendo como palco o mesmo lugar.

Cláudio Martins
Junho/2007
Contato com Cláudio Martins